Diário do Rumos Itaú Cultural Artes Visuais


Dia 10: Aracaju
15 Abril 2008, 12:40 pm
Arquivado em: Aracaju

Curioso notar como, apesar da proximidade geográfica, hajam algumas diferenças sensíveis entre Maceió e Aracaju. Inclusive no que se refere à paisagem: embora ótimas, as praias urbanas, por exemplo, aqui parecem ser mais “selvagens”, com largas faixas de areia separando o banhista do mar, que por sua vez é mais revolto, bravio, sem os idílicos predicados “caribenhos” de sua contrafação alagoana. Há praias mais “turísticas”, muito bonitas, localizadas mais afastadas do centro urbano, que por sua vez é cortado por dois rios, [pelo menos] um deles bastante poluído. Outro dado que não escapa ao olhar são as plataformas de exploração petrolífera, onipresentes no horizonte marinho à frente da capital sergipana. Pode ser um bom programa contemplá-las ao pôr-do-sol, enquanto se degusta algumas das inesquecíveis caipirinhas “nevadas” com sabores locais, num dos muitos quiosques da orla. De modo geral – e superficial, claro – tem-se a impressão, desde o aeroporto até restaurantes e “opções culturais”, que Aracaju ainda não está tão equipada para o turismo quanto Maceió ou Natal, por exemplo. O que não vejo como um problema, necessariamente – apenas a constatação, em boa medida intuitiva, de um “turista de ocasião”.

Do evento

A Biblioteca Estadual Epifânio Dória, prédio mal-cuidado de aparência pouco convidativa, de concreto armado e assemelhando-se a um bunker, mas com um auditório bastante confortável, é onde nos apresentaremos hoje. No mesmo edifício, numa área contígua ao auditório, há um espaço expositivo que, apesar de certa precariedade, constitui-se num dos principais locais da cidade destinados a esse fim. Antes de iniciarmos, toda a equipe do Rumos é solicitada pela imprensa local a dar depoimentos e entrevistas, fato não muito comum nessas viagens.

Como em Maceió, dois dias antes, o público não comparece em grande número; cerca de 40 pessoas, aproximadamente, acomodam-se nas poltronas.

A composição da mesa é a mesma da capital alagoana: estão comigo Marilia Panitz, Christine Mello e Tayná Menezes, do Itaú Cultural. Até por isso, evitarei entrar em detalhes sobre o conteúdo das falas, já que as palestrantes de modo geral acabam por realizar suas apresentações seguindo sempre um mesmo modelo, como não poderia deixar de ser, com mínimas “mudanças de script” eventuais. Sugiro portanto a leitura de tópicos anteriores para quem queira melhor se inteirar dos temas e assuntos já discutidos.

Christine Mello retoma suas perspectivas de abordagem do contemporâneo, com a estrutura da fala baseada na já conhecida tríade “desconstrução/contaminação/compartilhamento”, ressaltando “o novo estado de complexidade posto pela arte contemporânea”, ilustrando sua apresentação com os exemplos já comentados anteriormente.

Com Marília Panitz e sua exposição sucede o mesmo: a estrutura da fala se mantém intacta – sob o mote “Arte e crítica: Aproximações” – com um ou outro acréscimo ao material que já conhecíamos. Talvez por conta de uma resposta a uma intervenção da platéia no evento de Maceió, agrega en passant a noção de “olhar estrangeiro” de Walter Benjamin a sua fala, o “olhar que faz aparecer coisas que se fazem invisíveis no cotidiano”, a título de assumir sua – e nossa – condição de “semi-estrangeiros em trânsito” nessas viagens Brasil afora, diversas vezes em locais nunca antes visitados. Demora-se um pouco mais ao citar Ricardo Basbaum e seu modelo “híbrido” das atividades da crítica e da prática artística, ressaltando que a força da crítica estaria no enfoque multidisciplinar, sedutor, e na proximidade – ou cumplicidade – do crítico com a obra – e o artista.

De resto, segue seu roteiro de texto e imagens como programado, sem grandes alterações, afirmando ver potência na atividade crítica que invista em “partilhar metáforas” e “provocar desdobramentos”, colocando a si própria de certa maneira como “estudo de caso”, ao explicar seu trabalho já de 8 anos com o grupo Gentil Reversão, de Brasília.

Debate – Participação do público

Uma jornalista local – que depois sabemos ser bastante atuante na cena – faz um aparte sobre “a efemeridade da arte contemporânea” e sua fruição, citando alguns dos trabalhos que surgem nas falas das palestrantes, associando a seguir essa noção à de descentralização; a colocação assume tons de um manifesto sutil sobre a condição de “estar à margem”, etc.

Marilia comenta de um modo geral a questão da efemeridade, concordando que pode-se ver talvez uma tendência a proposições artísticas que lancem mão dessa linha de procedimentos mas que não se deve generalizar; Christine sustenta que, por mais que o cenário local seja árido, eles não se acomodem em discursos auto-excludentes de “periferia” e “isolamento” e comecem a se mobilizar, usando como exemplo a atividade silenciosa mas cheia de vitalidade de Paulo Bruscky na cena de Recife, décadas atrás. Enumera ainda as possibilidades que alguns projetos em novas mídias, como com celulares, começam a apresentar.

No lastro dessa discussão, surge uma pergunta-comentário sobre artistas de outros contextos, que têm contato com curadores e críticos, etc. – o que não ocorre lá – e “o que a mesa pensa disso”. Marilia se coloca do ponto de vista de quem é de Brasília, “que pode não ser Aracaju, mas que é diferente de estar em São Paulo”, como um meio termo nesse sentido, e termina defendendo que é possível se posicionar – não necessariamente “resolver” – em relação a isso se valendo de dados e estratégias locais. Christine entra na questão pela via do estatuto institucional do artista, citando Nelson Leirner, comentando a relatividade de “privilégios” de se estar em SP, dando exemplos de iniciativas em outros contextos, como Florianópolis. Eu próprio decido comentar o assunto e concordo com essa “condição relativa de privilégio”, me estendendo em contra-argumentos como a competitividade da cena artística de São Paulo, por vezes embutindo mesmo alguma animosidade, e das não-garantias de se ganhar visibilidade apenas por estar na metrópole; procuro aventar possibilidades para a cena local na linha do “da adversidade vi[v]emos”, sugerindo que os artistas talvez pudessem se mobilizar nesse sentido.

Um sujeito, que se identifica como sendo da associação de artistas da cidade, afirma preferir a rivalidade, ou algum “atrito”, a mobilizações harmoniosas entre artistas, nem sempre bem-sucedidas, diz ele. A seguir fustiga a imprensa local, na figura da jornalista presente na platéia, afirmando que a mesma não está pronta para a cultura”. Essas colocações inflamam parte da platéia, que se divide; a jornalista se pronuncia, há réplicas e tréplicas e em alguns minutos a situação se acalma.

Surge uma indagação acerca de mercado de arte, quem compra, perfil de colecionadores – que segundo a pessoa “estariam acabando” – e a relação [essencialmente venal] de galerias de arte e profissionais decoradores, baseado no que leu na revista Veja. Não me furto a observar que não se deve confiar plenamente em tudo que lê, especialmente na publicação citada, comentando ainda meu ponto de vista pessoal sobre a dinâmica envolvendo galerias de arte contemporânea e demandas decorativas, que não vejo com bons olhos, embora em última instância legítima. Marilia discorda do argüinte no que tange ao aventado decréscimo de colecionadores, abordando também a questão de perfis de compradores, o aspecto especulativo, estratégias de mercado, etc. Há tempo ainda para mais uma ou duas dúvidas técnicas, esclarecidas sem dificuldades por Tayná Menezes.

Ao final do evento, travamos contato com alguns artistas e professores universitários locais que nos esclarecem um pouco mais acerca da relativamente pobre cena artística de Sergipe, apesar de haver pelo menos um curso de artes visuais na universidade federal local. Há uma boa interlocução, e ganhamos alguns “kits” de publicações de artistas dali; somos informados ainda sobre não haver qualquer galeria de arte contemporânea na cidade.

A noite termina em um restaurante na orla, um dos únicos ainda abertos. Ali ficamos até a cozinha fechar e termos saciado o apetite de um bando de mosquitos que insistia em devorar qualquer porção de pele a eles exposta. No dia seguinte, já em Teresina e ainda contando as picadas da noite anterior, vejo na TV – não sem algum desconforto – uma reportagem sobre a incidência de focos de dengue, inclusive com casos fatais, justo em…Aracaju. Fico na dúvida de comentar ou não com os colegas, a fim de não comprometer a integridade psicológica dos mesmos.



Dia 9: Maceió
14 Abril 2008, 10:04 pm
Arquivado em: Maceió

Maceió; primeira cidade desta “perna” pelo Nordeste, que incluirá ainda Aracaju e Teresina. Ainda no vôo já é possível divisar a beleza deste trecho privilegiado do litoral brasileiro; águas de um azul-esverdeado idílico encontrando as areais claras de praias quase sempre muito longas…
Imbuídos de nosso habitual espírito de adensamento em referências culturais locais, decidimos investigar o litoral local, o que nos levou à paradisíaca Praia da Sereia, situada 20 e poucos quilômetros ao norte da capital alagoana – pouco depois de Riacho Doce, vilarejo famoso por ter sido cenário de adaptação televisiva de romance Jorge Amado, anos atrás. Uma experiência que se comprovou altamente positiva, dentre recifes, mar verde-cristalino e amostras da culinária local. “Tudo pela cultura”, parece ser o lema informal de nossas expedições.

Do evento

O evento se realiza numa sala no prédio da Pinacoteca Universitária da Universidade Federal de Alagoas [UFAL], um dos principais centros culturais voltados para a arte contemporânea em Alagoas. Um local peculiar, de funções mistas, abrigando simultaneamente um colégio e o principal espaço expositivo para arte contemporânea do estado. Na ocasião de nossa conversa, havia ali uma mostra de Paulo Bruscky em cartaz ["EEGs"], em meio à qual – literalmente – realizamos o evento. Uma experiência curiosa mas interessante.

Comigo, à mesa, estão Christine Mello, Marilia Panitz e Tayná Menezes, do Itaú Cultural. Na platéia, não mais de quarenta pessoas.

Christine Mello inicia as falas, aproveitando um mote de Bruscky que confessa ter capturado ali mesmo, na exposição – “Arte em trânsito” – para abrir sua apresentação. Sustenta as possibilidades do Rumos como um “espaço de troca” para em seguida retomar os pontos que habitualmente norteiam sua leitura da produção contemporânea: descentralização, contaminação, desconstrução, os quais introduz a partir de uma referência ao mito de Ourobouros.

A novidade em sua exposição é a exibição de trechos de Zidane, cultuado filme dos artistas Douglas Gordon e P. Parreno; o vídeo, bastante comentado à época de seu lançamento, quando da Copa do Mundo de 2006, consiste em registrar uma partida de futebol em tempo real [90 minutos] focando apenas no famoso jogador, com 30 câmeras seguindo seus movimentos, ações e, sobretudo, “inações”. Ressalta os aspectos ordinários, cotidianos das ações que constituem a existência mundana. Só então entra propriamente em sua fala, “Arte nas extremidades”, que introduz sob o mote de “formas expandidas de circulação da arte”. Como de hábito, apresenta o vídeo Transit, de Regina Silveira, que serviria para ilustrar sua leitura da noção de “contaminação” trabalhada pela arte. Emenda em Desmemórias, projeto de internet-art de Giselle Beiguelman que consiste numa espécie de grande colagem audiovisual em que, a partir da interação do usuário, se reprocessariam memórias [coletivas ou não], por meio de fragmentos de sketches televisivos, música e slogans de época. O cerne da fala de Christine se pauta, enfim, em “processos limítrofes da experiência da arte”.

Marília Panitz dá seguimento aos trabalhos, com sua apresentação “Arte e crítica: aproximações”. .De saída já anuncia que irá falar das relações entre arte e crítica e as possibilidades [ou não] da segunda na atualidade, qual seria seu lugar, etc. Abre a fala citando Argan e certo desencanto percebido pelo crítico e historiador, em seu “Arte e crítica de arte”, em relação às possibilidades para ambas num cenário de crise iminente, desenhado pelo novo estatuto de práticas artísticas da contemporaneidade, indagando sobre se “não estariam ambas caminhando para seu fim”. O pensador italiano não veria mais lugar para o trabalho valorativo da crítica, neste contexto; haveria para ele uma tendência a se produzir então o que se aproximaria mais da filosofia que da crítica. Marilia parte dessa posição “auto-analítica” de Argan em relação à disciplina crítica para instalar uma discussão sobre modelos e perspectivas para a atividade no cenário atual. Comenta, sem se alongar, o viés fenomelógico que caracteriza boa parte da crítica de arte contemporânea, recuperando a seguir a noção do juízo como cara à atividade, citando nomes como Meyer Shapiro e Greenberg. A partir daí, foca seu ponto em como as polaridades cumplicidade e distanciamento podem se manifestar no trabalho da crítica e do artista. Desfila exemplos de casos em que a atividade do crítico se desenvolve em graus diversos de proximidade, ou mesmo cumplicidade em relação ao artista e sua obra, de Baudelaire e Delacroix [e em outra medida Manet] ao caso mais emblemático de Greenberg e Pollock, passando por mario de Andrade e Anita Malfatti. Comenta a mudança de registro operada na então recente crítica de arte na “transição” informal de Diderot – até então o escriba por excelência da cena artística francesa – para Baudelaire, que afirmava ser impossível manter neutralidade ou imparcialidade em relação a obras e artistas sobre os quais escrevia. Demora-se um pouco mais no comentário da relação entre Cildo Meireles e Paulo Herkenhoff, em que em alguns momentos – a partir da leitura de dois ou três trabalhos pontuais do artista – se estabelece uma dinâmica a um só tempo, digamos, “reagente” e complementar que Marilia vê como instigante.

Mais adiante, retoma a “idéia ampliada de texto” introduzida pelo pós-estruturalismo, notadamente em trabalhos de Roland Barthes e Julia Kristeva e seus rebatimentos e [im]possibilidades no campo artístico, também já abordada em apresentações anteriores; daquilo que “não pode ser passado para o plano da palavra”, sendo forçado a se ater à “figuralidade” [outra noção cunhada por pensadores dessa vertente], engatando na produção de Oiticica, Kosuth e G. Maciunas [do Fluxus] como indicadoras de uma “escrita do próprio trabalho” – para além da escrita sobre o trabalho, bem entendido.

Retoma a questão da cumplicidade na atividade da crítica a partir das posições de Ricardo Basbaum, que atua em ambos campos, e que a palestrante vê como estimulante, possibilitando um registro novo na manifestação do juízo de valor. Encerra comentando sua atuação com o grupo Gentil Reversão, que integra, há anos, com mais cinco artistas, sempre na busca por um alargamento de possibilidades criativas investindo num perfil mais orgânico no âmbito das duas atividades.

Debate – Participação do público

A platéia, talvez um pouco tímida, demora a se manifestar. Mesmo sem implicar em uma relação causal direta, cabe lembrar que Maceió não possui cursos universitários em artes visuais, fator que naturalmente tende a minimizar um público mais especializado, à vontade talvez para se manifestar em um evento focado em arte contemporânea.

A primeira manifestação, um tanto confusa, indaga sobre certo “olhar estrangeiro” em relação ao Nordeste, como a mesa se posiciona quanto a isso. Marilia responde que de fato sente-se um pouco “uma estrangeira”, citando impressões de W. Benjamim sobre Nápoles para contextualizar sua leitura de “estrangeiro”. Como a questão parece subentender as impressões que eles, curadores estariam tendo da produção local/regional, ela esclarece que os serão os assistentes-curatoriais a fazer o mapeamento efetivo, operando em suas regiões “nativas”, e que só então ela e colegas poderão entrar com o “olhar de corte”. Christine Mello complementa pelo viés da semiótica, sua área de estudos, e de sua instrumentalização: sustenta que ali, no Rumos, como em outros setores da vida, trata-se de “criar relações entre as coisas”, estendendo-se em mais algumas considerações envolvendo subjetivações semióticas.

Surge na sequência um aparte que indaga sobre “onde estaria a literatura na arte contemporânea”, motivado por trecho da fala de Marilia acerca da “noção ampliada de texto” desenvolvida por certos pós-estruturalistas. Marilia gosta da colocação e aproveita para citar a produção do próprio Paulo Bruscky, que nos rodeia ali no espaço, articulando também conexões com a obra de J.L. Borges; Christine aproveita para citar o Ulisses de Joyce e a idéia do “fragmento em descontinuidade”, apontando possíveis relações com o cinema, que ganhava força simultaneamente ao romance; lembra dos chamados livros de artista e livros-objeto. Indica ainda a produção em vídeo de Gary Hill, por sua proximidade com a literatura, além do Livro de Areia de Borges, um clássico.

Por fim, a mesa é solicitada a identificar questões e tendências contemporâneas, “como isso se daria”, subentendendo ainda um componente regionalista na indagação… Marilia fala então dos problemas intrínsecos em se tentar identificar e/ou rotular a arte contemporânea; enfatiza uma linha de procedimentos na produção artística que instaure um dado questionador como mais potencialmente “contemporâneos”. Estende-se brevemente no ponto de aspectos regionais, a “fala do local”, de questões de repertório, etc. Christine complementa avançando um pouco mais na polaridade local/global, relatando ao final experiência que considerou marcante em Rio Branco, quando conheceu a “Biblioteca da Floresta”, projeto que integra de modo exemplar demandas de inclusão sócio-cultural e conscientização ecológica sem ignorar a força de aspectos da cultura local.

A noite se encerra com um aparte instigante de um professor de economia, reportando a experiência pedagógica na universidade e relacionando-a a certa “decadência cultural” generalizada, tópico animadamente comentado pela mesa.



Dia 8: Recife
3 Abril 2008, 9:52 pm
Arquivado em: Recife

Do evento

Nossa fala terá lugar na Fundação Joaquim Nabuco, um dos principais centros culturais voltados para a arte contemporânea em Pernambuco. Recife é uma cidade-referência em termos de fomento, produção e mobilização artística no Nordeste brasileiro. Até por isso, estranhamos a relativamente baixa freqüência do evento, com cerca de 40 e poucas pessoas presentes no auditório local, numa inversão de expectativas em relação a Macapá, última cidade visitada [ver tópico anterior], que teve o dobro de audiência que aqui comparece. Os coordenadores locais, contudo, nos garantem que está mais ou menos dentro do previsto. Alguns defendem que, justamente por ter uma cena viva e atuante, sintonizada na agenda cultural do país, é possível que artistas locais não tenham se interessado tanto em comparecer ao evento, já familiarizados com o formato do Rumos e tal. Talvez.

Mas enfim: comigo, à mesa, estão Paulo Sergio Duarte, Alexandre Sequeira e Tayná Menezes, representante do Itaú Cultural.

Paulo Sergio Duarte abre a mesa, retomando sua apresentação já amplamente comentada por aqui, “Arquipélagos”. Fala do vigor e do destaque da arte contemporânea brasileira, e retoma sua ‘hipótese’ da poética da reflexão, abarcando um nicho da produção daqui onde forma e conteúdo [conceito] não se dissociam ou distanciam. Discorre novamente sobre os fatores conformadores desta singularidade, notadamente a riqueza de uma certa modernidade brasileira – e a relação não-edipiana que as gerações de agora mantêm com a mesma -, bem como, num aparente paradoxo, sua precariedade ou fragilidade do ponto de vista institucional, que de certo ponto de vista teria sido positiva. Esta última se traduziria sobretudo nas lacunas que persistem até hoje no que se refere à formação de acervos consistentes – com obras daquele período – em museus ou coleções públicas; a falta de uma amostragem substancial desta produção segue sendo um capítulo vexatório em nossa relação com a modernidade.

Faz um breve contraponto de sua “poética da reflexão” com o conceitualismo norte-americano e tendências posteriores, alinhadas á desmaterialização da arte – contraponto porque ali se prescindiria deliberadamente do fator estético, da plasticidade por ele defendida em sua leitura da arte brasileira enquadrada em sua poética da reflexão.

A metáfora insular presente no título de sua fala – “Arquipélagos” – refere-se a “produções poderosas”, dentro do modernismo tupiniquim, mas que não se relacionavam umas com as outras [destaca nomes como Castagneto, Visconti, Anita Malfatti]; isso só mudaria com a chegada do construtivismo por aqui, quando ocorreria a consolidação de um efetivo projeto moderno [tardio?] brasileiro [certamente essa "efetividade" enquanto "projeto" gera controvérsias ainda hoje, que Paulo assume, mas que não cabem ser discutidas ali].

Em uma breve digressão, comenta que a produção – no esteio das Novas Figurações – precariamente chamada de pop no Brasil, nos anos 1960/70, “não tinha nada de pop“, até porque “o artista norte-americano podia ter um distanciamento com seu universo de imagens que o brasileiro não podia ter”, dado o contexto político tenso de então, no país. Este é um ponto que a mim interessaria estender para uma discussão mais aprofundada, mas num outro momento, mais propício. Retoma ainda os possíveis paralelos, já por ele estabelecidos anteriormente, entre representantes da poética da reflexão [brasileiros] e alguns casos da produção alemã e italiana [a povera], sem se alongar. Fico curioso para compreender melhor como fica a relação da “generosidade plástica” apontada por Paulo Sergio como dado intrínseco à sua P. R. e a produção de arte povera e sua característica – de modo geral – austeridade, mas acabo não perguntando; talvez numa próxima vez.

Passamos então a voz a Alexandre Sequeira, que discorre sobre a cena artística e cultural de Belém, cidade onde vive e atua como professor, artista e mais recentemente também como curador. Foca seu discurso, como de hábito, em artistas que partem de uma matriz popular, incorporando elementos locais em seus trabalhos tentando contudo não se ater ao recorte estereotípico do “regional”.
Ressalta, mais uma vez, a importância da linguagem fotográfica como determinante da vitalidade artística do Pará, com ênfase na atividade da Associação Fotoativa. A fala é permeada de conceitos como identidade cultural, regionalismos e os perigos de “estereótipos homogeneizantes”, sempre buscando demonstrar como, mesmo em um contexto mais “à margem” – admito, é difícil evitar alguns clichês…– é possível pensar estratégias de superação das adversidades sem abrir mão do “dado local”. A mim parece haver certo excesso no enfoque em fotografia – isso foi horrível -, e guardo para mais tarde uma dúvida sobre como andaria o restante da produção artística do estado – à parte nomes como Emmanoel Nassar, Marcone Moreira e o falecido Osmar Pinheiro, mais familiares a nós.

Debate – Participação do público

A primeira manifestação da platéia é para Paulo Sergio Duarte, compreensivelmente um “campeão” de questionamentos – e elogios – em nossas mesas. A questão não se faz muito clara, e diz respeito a uma certa precariedade recorrente na arte da América Latina à qual o Brasil não escaparia. PSD procede então a uma contextualização do cenário artístico-institucional latinoamericano, que ao final conclui não estar de modo geral em situação tão drástica quanto o brasileiro.

A seguir, Maria do Carmo, da Joaquim Nabuco, o interpela sobre a “relação não-edipiana” , assim como acerca do “vazio institucional” mencionado, que ela entende que PSD veja como positivo; PSD a lembra que é preciso contextualizar a questão, afirmando que ele se referia a tal “vazio” pensando as relações institucionais com a produção no período moderno.

Surge uma dúvida sobre a poética da reflexão, seguida de comentário acerca da “dificuldade de a arte contemporânea ser compreendida” [questionamento recorrente, com variações, em vários outros locais visitados]. Paulo responde indiretamente, retomando seu mote e reafirmando seu interesse por uma produção que “traga a reflexão embutida na concepção artística do trabalho”, citando Cildo e Tunga, seus exemplos entre outros; encerra parafraseando Adorno e Brecht, “onde está a política a arte não está”.

É lançada então uma indagação mais espinhosa, em torno da “política de regionalização” [sic] e de como esta se resolveria na curadoria, “como se daria essa negociação”. Alexandre sustenta que não se compreenda as coisas isoladamente, em separado, buscando priorizar a qualidade, a excelência, sem se valorizar “o regional” como um dado a priori. Faço também um aparte elogiando o teor da pergunta, que se alinha com algumas de minhas inquietações pessoais e complementando e meu modo as observações de Sequeira. Acho da maior importância que se discuta mais a fundo esse ponto, especialmente num programa como o Rumos, em que esse dado “regional” – subentendendo seu registro estereotípico – pode se misturar de modo delicado com demandas institucionais por “representatividade regional” de todo o país. Um sujeito que já fez uma pergunta meio que complementa a discussão, apontando que pode ser tudo uma questão de se tender ou não a um “olhar homogeneizante” ou não. Rodrigo Braga, jovem artista local de destaque, complementa ressaltando com pertinência alguns problemas implicados no formato do programa; fala também das dificuldades na atuação dos/das assistentes-curatoriais [não mencionando que ele próprio namora uma delas], de sua grande parcela de responsabilidade sendo tão jovens, etc.

Paulo Sergio concorda com o tom das colocações e defende a funcionalidade da noção de ataraxia [termo grego para suspensão das certezas/conceitos], também presente em seu texto.
Retomo a questão do “regional” e indago Alexandre quanto às possibilidades e problemas deste elemento, considerando a natureza de sua apresentação. Ele responde que sua opção por artistas que contenham esse dado forte em sua produção foi deliberada, pensada como uma forma possível de “ser [artista] contemporâneo” trabalhando a partir desta matriz evitando no entanto o aspecto folclórico.

Surgem mais duas dúvidas mais técnicas, referentes a idade e tempo de produção para efeito de inscrição no programa, esclarecidas sem dificuldades por Yara Kerstin, e damos o evento por encerrado.



Dia 7: Macapá
1 Abril 2008, 9:25 pm
Arquivado em: Macapá

Voltamos algo avulsamente ao Norte: dessa vez para Macapá, última capital ainda não-visitada pela “caravana Rumos” nessa região – com a exceção ainda de Porto Velho [RO], não incluída em nosso roteiro. “A cidade por onde passa a linha do Equador” é a principal [única?] referência que me ocorre.

O vôo tem escalas em Brasília e Belém, sempre com chuva; no último trecho, já de madrugada e prestes a pousar, em meio a uma tempestade, enfrentamos uma turbulência especialmente violenta. Recorro ao MP3 para, digamos, relaxar, e os primeiros versos que escuto, do Love & Rockets, não são os mais estimulantes naquele contexto: “…you are desintegrating / into everything around“… Desligo na mesma hora, tentando me convencer que não há nada de premonitório naquilo e tento focar no que Macapá nos reserva, após aquela chegada intensa.

O pior não ocorre e, após uma rápida disputa por táxis em que me vi forçado a abandonar qualquer civilidade – 2 da manhã, chovendo e sem ninguém respeitar a fila no aeroporto – chego ao hotel, de instalações bastante modestas para nossos parâmetros até então. Não que faça diferença no meu caso: é chegar e dormir profundamente. Desperto ao som das cabras no quintal vizinho, e a tempo de pegar as sobras do café da manhã.

Mais tarde, já na companhia de duas colegas de viagem, fazemos um reconhecimento de terreno até o ponto que parece se consistir na principal atração turística local: o forte, ou Fortaleza de São José do Macapá e seu entorno. Trata-se de uma imponente construção do século 18, bem à margem do Amazonas, sendo uma das “sete maravilhas brasileiras” [!]. Sim, Macapá situa-se num trecho da orla deste mar de água doce que é o estuário dos rios que vêm da Amazônia; uma visão que de fato impressiona. Almoçamos por ali mesmo – uma peixada típica – e terminamos o giro num shopping center, lamentavelmente o único local onde nos garantem poder tomar um café expresso. Algumas ruas, mesmo não tão periféricas, como a do hotel, apresentam vários trechos com asfalto rompido e condições precárias de trânsito, com terra batida. Assim como Boa Vista, a cidade aparenta ser muito plana, com prédios de não mais de 4 ou 5 andares, ainda assim esparsos. Cogitamos esticar até o famoso “marco zero”, supostamente o ponto exato por onde passa a linha do Equador, mas somos informados que este situa-se em uma região não tão próxima e absolutamente desinteressante. Preferimos então descansar um pouco e chegar mais cedo ao local do evento.

Do evento

Uma vez mais é o Sesc local a sediar nossas atividades, agora uma unidade que toma todo um quarteirão e que chama atenção por suas magníficas instalações com ênfase em práticas esportivas, muito bem mantidas. As palestras ocorrem num espaço coberto mas sem paredes, tornando a atmosfera do evento mais informal. Comigo, à mesa, estarão Marilia Panitz, Alexandre Sequeira e Yara Richter, coordenadora de artes visuais do Itaú Cultural.

A afluência de público termina sendo surpreendente, se considerarmos a expectativa que tínhamos em relação à cidade: cerca de 90 pessoas comparecem, uma boa maioria permanecendo até o fim. Convém ressaltar, contudo, que Macapá – ao contrário, por exemplo, de Boa Vista – possui um curso de graduação universitária em artes visuais, o que pode fazer muita diferença neste aspecto.

Marilia Panitz, crítica, curadora e professora do departamento de artes visuais da UnB, dá início às palestras, em sua primeira participação até o momento. Sua apresentação leva o título “Aproximações: arte e crítica”, já de saída indicando que sua fala passará pela análise do estatuto algo difuso da crítica de arte na atualidade, quais suas perspectivas e seu possível lugar de atuação. Abre citando G.C. Argan e sua posição em relação à atividade da crítica, sublinhando os diferentes registros que a escrita de arte pode assumir – ensaística, historiográfica, jornalística… Pontua sua fala com imagens, usando obras de arte para apontar aproximações entre artistas e críticos/teóricos ao longo da história da arte recente, comentando em que medida o elemento passional entre estes pode ou não determinar ou influir em juízos e leituras acerca de trabalhos. Assim, emergem telas de Pollock onde se evoca o olho e a atuação de Greenberg; de Delacroix e Manet, em que se evidencia a relação de ambos com Baudelaire [em "Música nas Tulherias", deste último, o pintor surge discretamente auto-retratado junto ao poeta], onde a proximidade afetiva seria um impeditivo, para o escritor, da emissão de juízo; de Anita Malfatti, para trazer à tona Monteiro Lobato [seu detrator] e Mário de Andrade [seu "protetor"]; e por aí vai, com mais alguns exemplos. A seguir, Marília se detém sobre a noção de “imagem como texto” aplicada a práticas artísticas, subentendendo na mesma “uma certa resistência da imagem ao discurso”, ou ao menos à sua lógica. A esta noção ela acresce ainda a de uma “pedagogia da imagem”, ao falar da obra de Kosuth, Oiticica e alguns nomes do Fluxus, artistas que estariam “escrevendo a própria obra”. Detém-se ainda sobre algumas obras de Cildo Meireles [como Introdução a uma Nova Crítica, 1970-200] e sua interpretação por Paulo Herkenhoff – à qual, por sua vez, Marilia sobrepõe uma re-interpretação pessoal, no que sugere que poderia ser um modelo de para a crítica de arte. Cita ainda uma passagem de Ricardo Basbaum onde se aventa um “lugar-entre” como possível para a crítica, com ênfase no diálogo.

Mais slides, agora de publicações especializadas em arte no Brasil, algumas já extintas, como a “Malasartes” e “A parte do fogo”, e “Numero”, que se destacam como iniciativas envolvendo artistas e teóricos, com graus diversos de “cumplicidade” em seus projetos. Fala ainda de sua experiência com o grupo-projeto Gentil Reversão, que integra com mais cinco artistas em Brasília, e que tem seu corpo de ações ditado pela valorização desse diálogo artista-crítico, com linhas de trabalho pautadas em “investigações sobre as possibilidades de diálogo” e sustentando “o lugar do texto como dentro do tecido da mostra”. Apresenta imagens de algumas mostras realizadas pelo grupo e encerra defendendo o papel da crítica, hoje, como “propositor de versões e provocações”.

Alexandre Sequeira então realiza sua fala, já amplamente comentada aqui anteriormente, com a proverbial ênfase em identidade cultural, regionalismos, e os perigos de “estereótipos homogeneizantes”. Termina sua apresentação sustentando que “ser contemporâneo não é necessariamente negar o dado local/regional”.

Debate – Participação do público

A platéia demora um pouco a se pronunciar. Após uma ou duas colocações genericamente elogiosas, um senhor indaga a Marilia “o que seria arte contemporânea”, pergunta tão pertinente quanto inadequada, dada a dificuldade em respondê-la em termos objetivos. Ela se desvencilha afirmando que arte contemporânea “é uma arte que lança questões sobre seu tempo, ou [sobre] o tempo em que se vive”, afirmando que nem toda arte produzida em determinada época possui essa característica. Tomo a liberdade de complementar citando as ‘categorias’ de Anne Cauquelin [arte contemporânea" e "arte atual"], distinções tão singelas quanto razoavelmente eficazes, acredito, para efeito deste tipo de questão. A seguir vem uma questão, inevitável, dirigida a Alexandre: algo como “o que ele conheceria da arte do Amapá”. Sequeira assume uma lacuna pessoal nesse quesito e diz só conhecer a produção do grupo-coletivo local Urucum – como de resto os demais integrantes da mesa. O argüinte se mostra compreensivo com nossa lacuna mas não oferece exemplos de artistas que escapem a uma produção de matizes estereotipicamente regionais/artesanais.

É então que uma jovem artista faz uma breve explanação acerca da cena local; ela integra um grupo de estudos e práticas artísticas ligado à universidade cujo foco é a pesquisa no corpo, mote que seria “um grande tabu” frente à fragilidade de mentalidade reinante no contexto institucional macapaense. Descreve algumas ações/intervenções protagonizadas por seu grupo, por vezes de caráter contestatório, e sua receptividade problemática, etc. A mesa comenta genericamente o teor das ações, ressaltando a importância do grupo não esmorecer frente a manifestações negativas.

A seguir, a coordenadora do departamento de artes visuais da universidade faz um aparte semelhante, afirmando ter gostado sobretudo da exposição de Alexandre [sobre a cena de Belém] e relatando também algumas propostas e ações de que ela própria participou ou realizou. Segue-se mais um ou outro aparte elogioso, de modo geral agradecendo a [rara] oportunidade de interlocução com personagens atuantes no meio de arte brasileiro. Surge ainda uma sugestão de se pensar mais um evento em Macapá, ainda durante essa edição do Rumos. Nada pode ser prometido no momento, embora a idéia agrade a todos. Encerramos o evento. O saldo geral é bastante positivo, a julgar pelos comentários dos colegas; é também minha opinião, ainda impressionado pela quantidade de pessoas que compareceram ao evento naquela noite quente.



Dia 6: Cuiabá
27 Março 2008, 9:10 pm
Arquivado em: Cuiabá

E eu que tinha achado que depois de Boa Vista [Roraima] não reclamaria mais de calor… Cuiabá é praticamente igual, com a diferença de que praticamente não há vento. Mesmo a brisa é um conceito quase abstrato por ali. A situação topo-geográfica da cidade, meio encravada numa baixada, não ajuda nesse quesito – mesmo com a bênção do rio que envolve com elegância a capital mato-grossense, seu homônimo. Os encantos da Chapada dos Guimarães começam “logo ali”, a alguns minutos de carro, mas é melhor não pensarmos nisso. Afinal, como de praxe em nossa jornada, se já não há tempo hábil sequer para se tecer impressões abalizadas sobre aspectos pitorescos locais – o que achei que conseguiria fazer nesses relatos –, quanto mais para pensar em “fast-turismo”.

Para complicar, nosso hotel se chama Amazon, e faz o possível para que seus hóspedes não esqueçam disso: há em todo canto – inclusive no teto, como afrescos improváveis, na piscina e no restaurante – uma profusão de ornamentos, adereços kitsch e itens decorativos de gosto duvidoso [para ficar num eufemismo], ressaltando a pujança da fauna e flora da gloriosa Amazônia. Como lá estivemos há pouco tempo, por vezes me confundo e espero me deparar com o Teatro Amazonas ao andar por duas quadras, o que não ocorre. Caminhar, aliás, é coisa que até os locais desaconselham: dependendo do horário: faz tanto calor que mesmo para distâncias curtas recomendam transporte motorizado, aí inclusa a modalidade moto-táxi, uma coqueluche local. Minhas expectativas pessoais mudam de “desfrutar rapidamente da cidade” para “sobreviver à cidade”.

No quesito “pitoresco”, um fato marcante: durante um trajeto de táxi, entrevemos no alto de uma colina o que o chofer anuncia, pomposamente, como “a nossa Notre Dame”: a Igreja Nossa Senhora do Bom Despacho, que consiste numa réplica em escala miniaturizada da célebre catedral francesa, com uma, digamos, interpretação toda peculiar da matriz gótica. Não sem algum esforço, consigo manter meu semblante sereno frente aquele reverente cidadão.

Do evento

O Sesc Arsenal, que nos recebe, possui instalações confortáveis e bem-cuidadas. O evento se dá numa sala que é também um teatro, espaçoso e bem-equipado. Todo o complexo arquitetônico que abriga esse espaço, um casario baixo que toma toda a quadra, tem uma beleza incerta, num misto de traços coloniais que concorrem com os indícios de uma reforma recente – o lugar fora anteriormente um arsenal. Na noite de nosso evento há também uma feira ocorrendo no local, basicamente oferecendo comidas típicas e algum artesanato. O pátio a céu aberto no interior do prédio, de formato quadrangular, abriga também uma choperia, sempre cheia, no que parece ser um programa regular da população.

O público presente é apenas mediano: cerca de 40 pessoas se espalham nas poltronas do amplo anfiteatro.

Após as habituais apresentações institucionais/introdutórias, o primeiro a falar é Paulo Reis, que retoma sua exposição acerca dos espaços e modelos expositivos. Há pequenas alterações em sua apresentação, sobretudo no conjunto de imagens que acompanham sua fala. Ressalta a importância das exposições como sendo “espaços de aprendizado do olhar” e discerra sobre as mudanças estatuto público e privado sofridas por estes espaços. Dentre as imagens, desfilam obras ou propostas de nomes como Duchamp, Yves Klein, Daniel Spoerri, Daniel Buren, Michael Archer e a dupla escandinava Elmgreen & Dragset. Cita também algumas iniciativas curatoriais que buscam alargar a noção de espaço de exibição e/ou circulação da obra, desdobrando-se em outros modelos “expositivos” e podendo assumir o formato de publicações [Premonitor, de M. Ramiro e Katia Prates, Amor/Love, de Regina Melim, projeto "Do it", do curador H.U. Obrist]. Conclui ressaltando a tônica em pensar o espaço como “dinâmico, cheio de possibilidades”.

A seguir é Alexandre Sequeira quem assume o microfone. Faz uma breve explanação acerca dos novos paradigmas temporais que caracterizam a existência contemporânea para então retomar a estrutura da palestra já apresentada em Brasília, dois dias antes. Seu tema é a cena artística de Belém, sua cidade natal, onde vive e trabalha – “a fala enraizada no lugar”. Como antes, divide sua fala em três módulos, assim dispostos: exemplos de obras e artistas paraenses contemporâneos que articulem e evidenciem aspectos locais em sua produção [nomes como Luiz Braga, Emmanoel Nassar, Marcone Moreira]; origem de espaços de discussão e “formação do pensamento crítico” naquela cena [com destaque para a Associação FotoAtiva, capitaneada por Miguel Chicaoka]; e espaços – institucionais ou não – que potencializam as noções de troca e ativação, onde comenta as possibilidades de articulação da cena belenense com outros pontos do país e do exterior, ilustrando sua fala com imagens de mostras e iniciativas diversas.

Debate – participação do público

Aberta a fala ao público, a primeira intervenção é algo pueril, uma colocação algo ressentida na linha do “por que vocês nunca vêm aqui”. Toda a mesa se pronuncia diplomaticamente, comentando as dificuldades implícitas num projeto que percorre boa parte de um país tão grande, etc. Não há muito como evitar certo lugar-comum nas respostas, dado o teor da indagação.

Em seguida, surgem algumas dúvidas mais “técnicas”, referentes ao Rumos: como inscrever projetos de videoinstalação, se há ou não limites de idade para participar, “qual o objetivo final do programa”, como está sendo feita a divulgação das palestras pelo país… Tayná Menezes, representando o Itaú Cultural, esclarece as dúvidas, lembrando que o edital do programa – tanto em sua versão impressa quanto eletrônica – traz a maioria dessas informações.

Uma jovem sugere que seja feito um contato, por parte do IC, com as secretarias de educação locais, a fim de potencializar a experiência das palestras; a sugestão é considerada boa, e anotada. Quando finalmente surge uma questão referente às palestras em si, ela é um tanto confusa; começa com um elogio às explanações e então se detém num comentário sobre como “adaptar o conceito à imagem”, reportando, creio, ao uso dos arquivos powerpoint feito pelos palestrantes. Paulo e Alexandre agradecem e respondem com apartes breves, comentando seus critérios na utilização da imagens. Sequeira aproveita o ensejo e se alonga em “estratégias de superação do isolamento” – um tema que também foi lançado pela audiência em algum momento, e que parece caro ao cenário local.

A conversa se encerra com um misto de comentário e indagação acerca das [supostas] “dificuldades da pintura hoje, sobretudo a figurativa”, subentendendo que essa modalidade seria alvo de preconceitos em iniciativas como o Rumos; Alexandre se dispõe a responder e o faz com delicadeza, sustentando que o problema talvez não seja a pintura em si como “categoria”, mas o modo como ela é pensada, concebida; e que sempre haveria espaço para uma pintura que embuta certo coeficiente de reflexão.

Após uma rápida confraternização com alguns dos presentes, sempre um dos melhores momentos de nossos eventos, imergimos na noite quente e abafada de Cuiabá, em busca de uma refeição antes de voltar ao hotel para uma noite de sono “amazônico”.



Dia 5: Brasília
26 Março 2008, 9:08 pm
Arquivado em: Brasília

A vantagem de se estar em Brasília – e por apenas um dia – é que não há muito a dizer: a cidade é de certa forma “auto-explicativa”. Por ficar alojado num hotel razoavelmente isolado do centro [vizinho ao Palácio do Alvorada], não me disponho a incursões turístico-culturais, permanecendo recluso até horas antes do evento, quando vou me juntar ao resto da equipe [Paulo Sergio Duarte e Alexandre Sequeira, palestrantes, e Valeria Toloi, do ItauCultural, além das duas produtoras]. Neste relato, a ênfase será no evento.

Do evento

Casa lotada no surpreendentemente mal-cuidado auditório do departamento de artes visuais da UNB. Quase 200 pessoas, estudantes e professores da universidade em sua imensa maioria, se aboletam nas cadeiras, piso e imediações do espaço para acompanhar o evento.

Paulo Sergio Duarte inicia os trabalhos retomando a estrutura de sua fala já proferida em Belém, “Arquipélagos”. Comenta as diferenças que há em se falar para uma audiência mais especializada, do “meio de arte”. Emenda então nas questões que lhe interessam, como a da [não] identidade cultural na produção artística brasileira, ressaltando a singularidade desta em relação a países em que se percebe o esforço em se construir identidades culturais “exclusivas” [e excludentes] e à noção de local, especialmente na chave trabalhada por Moacir dos Anjos [curador]. Retoma então seu mote, o da “poética da reflexão”, com o qual designa um nicho de produção brasileira que pode abarcar o dado conceitual mas ao mesmo tempo “plena de generosidade plástica”. Desta vez, cita alguns trabalhos como exemplos desse raciocínio, como Babel e Blindhotland, de Cildo Meireles e Luz de dois mundos, de Tunga, e sugere aproximações, por esse viés, com alguns nomes da arte povera e da cena alemã [como Beuys, Baselitz, Kiefer]; não se trataria de simplesmente de “se levar a refletir”, mas da reflexão “embutida mesmo no projeto poético”. Contrapõe a estes, sem exemplificar, trabalhos com excesso de elementos narrativos ["ainda que densos, fortes"] mas com “déficit” de formalização no projeto poético. Assume a singularidade do caso brasileiro – a ausência de um projeto efetivo, a “relação não-edipiana” da produção contemporânea com seu passado moderno, a “adversidade”, etc. – como potencializadora de seu interesse por essa produção; faz um breve exercício de genealogia da arte brasileira, desde o que considera a “primeira fase do modernismo” no país [Visconti, Castagneto], que teria transcorrido sob “o elogio da academia”, até o advento do construtivismo, que transformaria a produção brasileira “de ‘arquipélago’ em ‘continente’”; lembra ainda a não–institucionalização na cena artística brasileira como um dado marcante neste processo;

Alexandre Sequeira [artista, curador e professor universitário em Belém] apresenta suas questões sob o mote “Deslocamentos”, adiantando que sua fala será uma espécie de relato de caso focado na cena paraense, sobretudo a de Belém. Nas entrelinhas, pode-se ler como um depoimento acerca de um contexto razoavelmente “periférico” – embora não um caso extremo, dada a vocação razoavelmente cosmopolita da capital paraense – e sobre que estratégias locais adotar para superar essa condição; Alexandre pontua sua fala com expressões como “deslocamentos podem ser situações de enfrentamento” e “uma identidade só se constrói quando confrontada a outra”.

No decorrer de sua explanação, Sequeira exibe imagens de obras de artistas paraenses, sempre mantendo a tônica do “componente de identidade local ou regional”. Sucedem-se então trabalhos de Luiz Braga [fotógrafo veterano e espécie de "artista-referência" da cena de Belém], Emmanuel Nassar, Osmar Pinheiro [pintor falecido há dois anos], Marcone Moreira [expoente da "nova geração" paraense, e como os anteriores já razoavelmente conhecido no eixo RJ-SP], Paula Sampaio [fotógrafa, também jovem] e Miguel Chikaoka [outro fotógrafo veterano, oriundo de São Paulo e radicado em Belém; figura central na difusão e desenvolvimento da fotografia no estado a partir dos anos 1980, é o fundador-coordenador da Associação Fotoativa].

Um segundo bloco apresenta imagens mais contextuais de Belém, trazendo registros de eventos e iniciativas culturais autônomas ali transcorridas no espaço de algumas décadas, especialmente acerca dos personagens e iniciativas envolvidos na pesquisa e experimentação fotográfica, que marcaram o cenário cultural local nas últimas duas décadas. Neste quesito, o grande destaque é para a Associação Fotoativa, iniciativa que deflagrou forte movimentação em torno da pesquisa fotográfica no Pará, que viria a se constituir como linguagem. Há ainda um terceiro conjunto de imagens, mais focado em ilustrar situações expositivas em locais não-usuais – ruas, mercados –, sempre em Belém.

Alexandre encerra sua apresentação insistindo na importância dos artistas em articular questões e elementos locais em sua produção, de não esquecer as características de “seu lugar”. Seu ponto de vista, no entanto, é menos o de defender uma “poética regionalista” que o de propor estratégias de superação frente a um cenário adverso ou rarefeito no que tange à arte contemporânea, onde recorrer ao ideário cultural local pode ser uma alternativa.

Debate e perguntas

A primeira pergunta [de poucas, estranhamente, dado o contexto] é para Paulo Sergio, e refere-se à possibilidade ou não de aproximação de sua “poética da reflexão” a outra noção que a indagadora vê como similar, a do “conceitual ideológico” [cuja autoria não consegui identificar], particularmente no que tange à obra de Cildo. PSD vê alguma relação com o termo, mas talvez “com menos precisão” [por parte de seu conceito]; cita alguns exemplos em que não haveria o teor de “ideologia” tão latente, como no próprio Blindhotland, deste artista. Emenda ainda, sem se alongar, em um comentário sobre “neoexotismos” em alguma medida nefastos, cultuados atualmente no Brasil.

A seguir, Marilia Panitz, na platéia, coloca questão que vê como presente em ambas as falas do dia, sobre “certa timidez da presença da instituição”, ou da ausência da mesma como determinante ou, paradoxalmente, força propulsora em cenas artísticas no país. Alexandre diz que isso de fato foi a realidade por um bom tempo em Belém, e que felizmente o quadro hoje, naquela cidade, é melhor; mas que de qualquer modo a classe artística local sempre se recusou a resignar-se àquela situação, conclamando a tomar “o isolamento” como força-motriz. PSD complementa discerrando sobre a conhecida carência institucional no país [sempre do ponto de vista das artes visuais], das lacunas em acervos públicos, etc. Encerra citando o comentário infeliz proferido por um alto funcionário de órgão federal ligado à cultura, em que o sujeito sustentava, seriamente, que as políticas institucionais de museus brasileiros devem ser não a de “aquisição”, mas “a de doação”. Triste diagnóstico.

Um estudante arrisca uma questão para PSD, mas infelizmente se equivoca no enunciado: quer saber qual seria o “projeto artístico brasileiro” sobre o qual ele teria falado. Paulo Sergio corrige, esclarecendo que nunca falou em “projeto brasileiro”; no máximo no projeto construtivo, sugerindo uma discussão em potencial a partir das noções de “construtivo” e “abstração geométrica”. A seguir, fala de sua posição em relação à instituição, lembrando que sua própria trajetória se confunde com cargos de direção à frente de diversas instituições [inclusive a Funarte]. Emenda em comentário sobre a “mercantilização de tudo” no mundo do capitalismo avançado, à qual nem a arte estaria imune, sendo frequentemente “colocada ao nível de mercadoria”; e comenta por cima tendências em arte de crítica institucional e a ação de coletivos de artistas, que vê como estimulante, onde não raro “a ética sobrepuja a estética”. Frente ao silêncio ou timidez da audiência, aproveito a referência rápida de PSD e permito-me retomar o mote da atuação dos coletivos e do “ético sobre o estético”, alongando-me mais no tópico. Exponho o que vejo com problemas em potencial que esse modelo de práticas pode incutir; assumindo que estou generalizando; me refiro a ações de coletivos de artistas que, por mais sérias e comprometidas em seu engajamento que sejam, a meu ver se enfraquecem ou mesmo se esvaziam quando insistem em ser referidas como “arte” [o caso da ocupação Prestes Maia, por exemplo, dentre tantos outros]. É como se esses grupos [ainda generalizando] não conseguissem um grau de despojamento suficiente em sua prática para abandonar a égide da “arte” como condutora/propulsora das ações que empreendem, sendo que estas frequentemente parecem estar se dando em outro território – e aí voltamos para o aspecto da “ética sobre a estética” mencionado por Paulo Sergio –, quando não flertam mesmo com franco assistencialismo. A discussão inevitavelmente passaria por estética relacional, a última [e talvez a próxima] Bienal de São Paulo, etc., e não caberia aqui. Comento também práticas de “arte de crítica institucional” no Brasil, e sobre a dinâmica que vejo como algo esquizofrênica gerada a partir do momento em que, consagradas e legitimadas como tal [sejam de cunho efetivamente "problematizador/tensionador" ou não], a instituição passa a achar quase benvindas esse tipo de propostas. Penso em salões de arte em que sempre há um ou outro trabalho nessa linha de abordagem, quase como uma “categoria” ou modalidade autônoma e “desejável”, quase um registro do politicamente correto adaptado para o mundo da arte. PSD concorda e reforça ainda que a própria noção de instituição é remota no país.

A platéia continua retraída, e como já se faz tarde, encerramos o evento.

Ignorando o dado “local” presente nas falas da noite, contudo, fechamos nossa estada em Brasília indo jantar – ou “cear”, àquela altura da noite – em um ótimo restaurante argentino.



Dia 4: Boa Vista
14 Março 2008, 9:07 pm
Arquivado em: Boa Vista

A primeira sensação, ainda do avião, é de alguma surpresa: mesmo sem ter expectativas definidas acerca do que esperar de Roraima, mais localizadamente de Boa Vista, chama atenção a formação topográfica e vegetal na região em que se situa a capital: assemelha-se mais a um cerrado, ou a “savanas” com colinas. Chamo de “surpresa” por conta de tratar-se de uma área extrema do país e situada em território amazônico, o que inevitavelmente gera uma expectativa – moldada por estereótipos, é verdade – por florestas cerradas e vegetação luxuriante, que não há. Mas claro que no fundo é completo desconhecimento anterior de minha parte.

Como nas três cidades anteriores, a capital se situa às margens de um rio, o Branco. Num rápido vislumbre aéreo, percebe-se que se trata de uma cidade razoavelmente pequena – para uma capital – mas planejada, em formato de leque, espalhando-se num desenho elegante a partir da orla. Nota-se também, ainda das alturas, diversos nichos de pobreza, com casebres amontoando-se organizadamente dentre ruas de terra, mais para a periferia. Em terra, minhas impressões foram a de uma cidade muito plana, de ruas largas e limitadas opções turísticas, e com pouquíssimas áreas verdes no projeto urbano – o que, combinado ao clima local, potencializa a sensação de aridez.

Faz muito calor, mais que em qualquer outra das localidades visitadas até o momento. O sol é tão quente que mesmo a convidativa piscina do hotel, cercada por árvores, é evitada a partir das 11 da manhã, ganhando mais afluxo de banhistas a partir das 4 da tarde.

Leio no diário local ["A Folha de Boa Vista", todo em preto-e-branco] um colunista lamentando as ainda precárias condições de acesso à internet no estado; ironicamente, foi o lugar onde tive a melhor conexão à web dentre todas as cidades visitadas no Norte, em meu quarto de hotel. Parece que dei sorte, isto não é a regra por aqui.

Em conversas breves com interlocutores locais, percebemos um quadro complexo de relações sendo discutidas no estado, sobretudo a questão referente à demarcação de áreas indígenas. Roraima é um estado recente, com menos de 20 anos de existência, e quase 50% de seu território é oficialmente ocupado por terras indígenas, recentemente “beneficiadas” por uma lei ambiguamente protecionista [não há espaço aqui para me alongar na contextualização adequada]. Some-se a isso o tradicional extrativismo mineral – ouro, prata e diamante –, não raro praticado de forma ilegal dentro dessas mesmas áreas, e tem-se um delicado cenário político.

Temos dois dias de permanência em Boa Vista, quase “um luxo” em nossa rotina sempre acelerada, mas o calor é tanto que inviabiliza até mesmo eventuais programas turísticos. Caminho apenas duas quadras até uma farmácia próxima, e já é o suficiente para sentir na pele. Sucumbo um tanto covardemente ao apelo do ar-condicionado de meu quarto, onde só me resta escrever ou tentar terminar a leitura de um dos três livros começados que me acompanham há meses. A dificuldade em encontrar minha marca de cigarros, que depois compreendo se dever ao lobby da fabricante rival na cidade, compromete meu rendimento, mas paciência.

Do evento

Público surpreendentemente baixo, mesmo para nossas expectativas já não muito otimistas: afinal, Boa Vista não possui um curso universitário sequer em artes visuais, tampouco há galerias na cidade. O Sesc local, que recebe nosso grupo, constitui-se praticamente na única referência na cena artístico-cultural da cidade. Há um outro centro cultural na capital, de aparência meio “shoppinesca” e que não chego a visitar, mas que pelos comentários de colegas não parece ser um programa compensador.

Cerca de uma dúzia de pessoas [!] se espalhavam pelo auditório, entre artistas e agitadores culturais locais e simples curiosos. Frente a essa situação, decidimos abrir mão do uso de microfones, tornando a coisa mais intimista. E funcionou: as pessoas ficaram mais à vontade, os próprios palestrantes se contagiando por esse formato e adotando em suas falas um tom mais próximo ao de uma aula informal, não se furtando a caminhar pelo espaço enquanto expõem suas imagens de apoio.

As apresentações de Paulo Reis e Christine Mello [e a essa altura creio já não ser preciso especificar os conteúdos de suas palestras, comentados nos relatos anteriores], agora mais enxutas, após a incorporação de comentários e observações anteriores do público quanto à recepção, transcorrem de modo mais fluido, solto, respondendo também ao clima de informalidade vigente. O que poderia ter sido uma grande frustração, por conta da baixa afluência de público, é revertido a favor, numa agradável “conversa aberta”. A platéia se pronuncia mesmo durante as falas, uma novidade em nossos encontros até então.

Surgem algumas dúvidas mais “técnicas-institucionais”, referentes à verba [ou "pró-labore"] para produção de trabalhos selecionados, rapidamente esclarecidas por Yara Richter, do Itaú Cultural. Um fotógrafo-artista local insiste na questão do mercado, de como se criar demandas para a produção de lá, etc. Paulo Reis comenta o assunto, estendendo a discussão também para contextos menos “periféricos”, tentando apontar estratégias que potencializem a constituição de uma dinâmica mais estruturada [a necessidade de galerias, curso superior, críticos, etc.]; mais dúvidas gerais, etc. De modo geral a participação de público é tímida, seja pela audiência reduzidíssima como por vários apartes já terem sido feitos no decorrer das apresentações

Encerramos nossa jornada pelo norte num complexo de bares e restaurantes na orla do Rio Branco, acompanhados da coordenadora do Sesc local, muito simpática [são sempre simpáticos, nossos contatos]. Um conjunto musical embala a diversão com alguma competência e um repertório duvidoso; boa parte das canções é em espanhol, lembrando da proximidade da fronteira com a Venezuela, a poucas horas de carro dali. Quem sabe numa próxima vez conseguimos uma esticada até Isla Margarita…



Dia 3: Rio Branco
12 Março 2008, 9:05 pm
Arquivado em: Rio Branco

Desembarcamos em Rio Branco por volta de meio-dia, o que nos dá menos de 6 horas para perambular pela cidade, tentando formar um repertório mínimo de dados e informações locais antes do início do evento, mais à noite. O hotel, um dos únicos da cidade, localiza-se próximo ao rio Acre [não exatamente branco], numa região que parece ser razoavelmente central. Curiosamente, percebemos que a equipe de bordo do vôo que nos trouxe também está se hospedando no mesmo estabelecimento, o que gera uma breve e inusitada confraternização. Faz bastante calor, como era previsto.

Nosso “reconhecimento de terreno” não é dos mais animadores: os arredores, uma zona comercial, não possuem atrações turísticas propriamente ditas. Há um tipo de casario pitoresco na orla do rio, que encanta mais pelo colorido de suas fachadas, dispostas lado-a-lado, que por características arquitetônicas em si. Já na ponte que dá acesso à cidade se distingue claramente sinais de pobreza, nas palafitas que se sucedem precariamente ao longo do rio.

Uma colega de viagem sustenta que, apesar da paisagem citadina relativamente árida e pouco convidativa a “flanagens” – ao menos a um primeiro olhar e na área limitada que percorremos – há mais indícios de planejamento urbano aqui que Manaus, de onde acabamos de chegar. Pode ser; prefiro não formular opinião, dada a brevidade de nossa permanência nestes locais. Dois colegas de viagem relatam boas impressões sobre o Museu da Borracha e da biblioteca Marina Silva, misto de casa de leitura e centro cultural, ambos nas cercanias.

Do evento

As palestras ocorrem no Teatro Hélio Mello, instituição que homenageia o famoso e finado artista local [de quem havia peças na 27ª Bienal de São Paulo].

O evento inicia com a fala de Christine Mello, que reforça que o foco de sua leitura da produção contemporânea está “numa perspectiva transversal, que permite deslocamentos”. Comenta que a “contaminação”, um dos conceitos que lhe interessa – e ilustra com obra de Regina Silveira [o vídeo de Transit] –, como “o trânsito entre os espaços da arte e da vida”. O vídeo Vera Cruz, de Rosângela Rennó, serve para ilustrar sua aproximação com a noção de desconstrução [“um filme de sobras, de bordas”]. Ressalta ainda que a perspectiva de “Arte nas extremidades”, título de sua apresentação, é a da cultura digital.

Em seguida, Paulo Reis expõe sua fala acerca do estatuto cambiante do espaço expositivo, desde sua gênese no século 17 à atualidade, em que artistas passam a incorporar o dado institucional como força motriz em sua produção.

Abre-se o debate à platéia. A primeira indagação é de ordem mais técnica, sobre o fato de haver apenas um curador-assistente para realizar o mapeamento da região norte [Armando Queiroz, de Belém]. Yara Richter explica que isso se deve à diretriz de se trabalhar apenas com curadores-assistentes locais nesta edição do Rumos, como forma de se otimizar esta etapa do programa, e que a região não ofereceria muitas alternativas de nomes com este perfil.

Em outro aparte do público, vem à tona o singelo termo “florestânico” – que expressaria e/ou sintetizaria o espectro cultural e o modo de vida dos habitantes da região –, o qual gera comentários simpáticos por parte dos componentes da mesa.

Em seguida, um membro do público agradece à mesa pela presença e observa – com pertinência, a meu ver –, que apesar do sincero prazer em estar ali, sentiu que as exposições dos palestrantes, ainda que instigantes, foram um pouco extensas e talvez um pouco “complexas” para o repertório médio local. De minha parte, embora não verbalizando, concordo com a observação; trata-se de um ponto importante, uma vez que as apresentações dos curadores são o mote destas viagens [juntamente com a difusão do Rumos], e não há sentido em promovê-las se negligenciamos as condições de assimilação das mesmas pelo público. Não é um problema de fácil resolução, dadas as variantes em jogo: seria simplista e indelicado pensarmos em termos de “rebaixar o discurso”, mas ao mesmo tempo há que se tentar equacionar melhor este aspecto. Debateremos internamente esta questão. O autor do comentário também questiona a “ausência de casos brasileiros” nas palestras; creio que ele se refira basicamente à apresentação de Paulo, mas é Christine que responde, argumentando que só usou exemplos de artistas nacionais em sua fala [Regina Silveira, Rosangela Rennó]. Complemento dizendo que, pelo próprio teor da palestra de Paulo, esta ausência seja explicada [especificamente no que diz respeito à genealogia dos espaços expositivos de arte].

Há tempo ainda para uma breve mas animada discussão acerca dos estigmas e relativismos que permeiam a questão “eixo Rio-São Paulo”, um tópico inevitável no âmbito de um programa como o Rumos.

A noite se encerra com a intervenção de um artista local, Dalmir Ferreira, que faz um breve e simpático relato sobre sua própria experiência ao ter sido mapeado na primeira edição do Rumos. Agora só resta Boa Vista, amanhã, para completarmos a “perna” Norte desta etapa do Rumos.



Dia 2: Manaus
11 Março 2008, 9:02 pm
Arquivado em: Manaus

Seguimos para Manaus – agora sem podermos contar com a companhia de Paulo Sergio Duarte –, onde ficaremos por menos de 24 horas, infelizmente.

E aqui aproveito para fazer um rápido esclarecimento: lembrar que as viagens a serem realizadas nesta etapa do Rumos Arte Visuais, passando por 19 cidades do país, não prevêem visitas a ateliês ou encontros com artistas. Apesar de sempre contar com alguns dos curadores nas mesas, o foco destes eventos presenciais está principalmente na divulgação do Rumos Brasil afora (incluindo, naturalmente, esclarecimentos de dúvidas gerais acerca do programa, o que para olhos metropolitanos-cosmopolitas é mais importante do que possa parecer, sobretudo em áreas com menos acesso à informação), além de permitir que os curadores – que se alternam nas viagens – apresentem suas idéias e linhas de pesquisa, que provavelmente serão rebatidas nas exposições que terão lugar no próximo ano. O mapeamento propriamente dito será realizado pelos oito assistentes-curatoriais, designados para atuar localmente em suas regiões.

Manaus. Desembarco tentando conter as expectativas do que não poderei conhecer, dada a brevidade de nossa passagem. Preciso parar de pensar nesses termos (não estamos aqui a turismo, afinal), mas é difícil. Só há tempo de ir rapidamente ao afamado e grandioso Teatro Amazonas e a uma loja de artesanato local (ok, ok, talvez um pouco de turismo), num tour rápido entre o almoço e o início do evento. Não chegamos a conhecer a (extinta?) Zona Franca, que está a seis quadras do hotel, nem a sorveteria Glacial, um must local, pelo que ouvimos. Nada de passear de barco, ver o encontro de águas do Rio Negro com o Solimões, tomar tacacá no centro ou pescar piranhas.

A atividade hoje irá transcorrer no Sesc local, entidade que gentilmente abrigará também os eventos do Rumos em outras localidades.

Do evento

O prédio do Sesc de Manaus localiza-se numa rua comercial movimentada e, num relance, parece dotado de infra-estrutura razoável. O misto de anfiteatro e auditório é amplo sem ser propriamente grande, bom para abrigar eventos como o nosso ou pequenos shows (há camarins no backstage, embora um tanto precários). Os responsáveis locais pela instituição, Nilton Carlos e sua assistente Raquel, são simpáticos e atenciosos.

Paulo Reis e Christine Mello apresentam suas falas – já brevemente comentadas na primeira postagem deste tópico (em Dia 1: Belém) –, sem grandes variações, para um público razoável no confortável espaço do Sesc.

Findas as exposições, hora de participação da platéia. O povo demora um pouco para vencer a timidez e lançar a primeira questão. Quando esta vem, e por seu teor é endereçada a Paulo, trata de modo algo confuso da relação do trabalho do artista com o espaço expositivo, de um ponto de vista mais museográfico. Discutimos um pouco os problemas inerentes a um formato expositivo como o do Rumos Artes Visuais, que em suas diversas curadorias geralmente abarca um corpo considerável de trabalhos e tem que lidar com situações expositivas diversas – e não raro adversas – país afora, e de como as montagens podem afetar a leitura das obras. Comentamos ainda o papel do artista frente a este quadro, sem chegarmos exatamente a soluções, mas de todo modo alargando uma discussão que sem dúvida é procedente.

Um rapaz, que se anuncia como quadrinista [autor de HQs], indaga, após uma breve digressão acerca da cena artística local, sobre o teor de “visibilidade” que o Rumos proporcionaria a seus participantes. A mesa responde que esta não é uma premissa do programa, embora isso naturalmente ocorra, afinal trata-se de um projeto prestigioso e com ampla cobertura da mídia. A conversa estende-se para a questão dos “mapeados” (aqueles que são contatados e/ou visitados pelo programa mas que não entram na seleção final, modelo que em princípio deverá ser extinto nesta edição), quando lembramos que não é incomum que alguns destes terminem por alcançar mais visibilidade que os selecionados. Reforçamos que parte do perfil do Rumos está apoiado em certa dose de risco nas escolhas, dada a vasta amostragem de obras e artistas muitas vezes totalmente desconhecidos. Estendemos rapidamente a discussão sobre a dificuldade das HQs/comics em atingir o estatuto de “arte séria” – o que se mostra cada vez mais relativizado na produção contemporânea de quadrinhos, com potenciais “autênticos artistas contemporâneos” – e sobre quais fatores estariam por trás desta estigmatização, como o fato dessa ser uma linguagem voltada para circulação massiva, produzida em escala de reprodutibilidade industrial, etc. Uma discussão que pessoalmente me interessa, mas que talvez não seja apropriada para esta mesa.

Já nos aproximando do encerramento, um senhor interroga a mesa de modo um tanto prolixo sobre “se a arte teria transcendido o objeto artístico”, sem no entanto deixar claro seu ponto. Christine Mello responde delicadamente parafraseando Leonardo – “A arte é cosa mentale” – e afirma que sim, “a arte é linguagem e nesse sentido transcende o objeto artístico”. Paulo Reis complementa o aparte da colega citando H. Rosenberg: “a arte é metade matéria (forma), metade pensamento”. O evento é finalizado de modo simpático e caloroso, com várias pessoas da platéia procurando os palestrantes para trocar contatos e informações.

A noite é encerrada com uma modesta e memorável incursão gastronômica ao Açaí, restaurante típico local que se provou sugestão mais que acertada de nosso anfitrião, Nilton, para nos despedirmos de Manaus. Amanhã será Rio Branco.



Dia 1: Belém
10 Março 2008, 8:31 pm
Arquivado em: Belém

Belém, 10 de março. Início do périplo Rumos Artes Visuais 2008-2009. Primeira de 19 cidades a serem visitadas nessa etapa de difusão do programa país afora, até maio – e eu estarei em todas elas, exercendo nessa etapa duas das três funções que me cabem neste Rumos: coordenação das mesas e confecção destes relatos. Integram a comitiva no Pará Christine Mello e Paulo Reis, curadores, Yara Kerstin Richter, gerente do núcleo de artes visuais do Itaú Cultural, e, numa feliz confirmação de última hora – graças a uma súbita disponibilidade de agenda –, Paulo Sérgio Duarte, coordenador-geral desta edição do programa. A rotina de eventos será um tanto desgastante: 4 cidades em 5 dias, neste primeiro módulo de viagens. Após Belém, seguimos para Manaus, Rio Branco e Boa Vista, respectivamente.

O calor não é tão intenso quanto imaginava, mas combinado à alta umidade do ar pode mexer bem com o organismo, antes da aclimatação. Em compensação, o calor humano é impressionante: poucas vezes me senti tão rapidamente à vontade em um terreno até então para mim desconhecido. Desde já deixo um abraço especial pela acolhida calorosa a Alexandre Sequeira, outro dos curadores desse Rumos, bem como a Armando Queiroz, um dos assistentes curatoriais, Val Sampaio, Armando Sobral e Orlando Maneschy – todos também artistas, professores e profissionais atuantes na cena paraense, seja na universidade, seja em instituições culturais locais.

Do evento
Casa cheia no Instituto de Artes do Pará (IAP); o confortável auditório de porte médio abriga um bom público. Após as apresentações de praxe, Paulo Sergio Duarte abre a mesa falando da relação da produção contemporânea brasileira com seu passado moderno – que vê como “não-edipiana”, no sentido de não se buscar um “confronto” ou ruptura com essa tradição – se é que chegou a se conformar como tradição, no nosso caso; mas esta é outra discussão. Em todo caso, trata-se de mote recorrentemente debatido no meio da historiografia da arte no Brasil –, mas que “a incorporam e a transformam em novas linguagens”. Duarte identifica nessa dinâmica uma tensão positiva, revitalizadora e demarcadora da força e da singularidade de nossa produção, convergindo para o que chama poética da reflexão: um corpo de obras que, “sem fugirem das exigências conceituais de sua construção, se manifestam, simultaneamente, com vigor plástico”.

Em seguida, Paulo Reis, crítico de arte e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), discerra sobre a constituição dos espaços expositivos como arenas de discussão crítica e pública da visualidade. Analisa a construção histórica deste espaço, desde a introdução do modelo de salões no século 18 até suas diferentes configurações na contemporaneidade, apontando as mudanças de estatuto percebidas não apenas em um certo conceito de espaço expositivo como “modelo clássico” como na relação do público e dos artistas com os mesmos. A fala é fartamente acompanhada de imagens que ajudam a contextualizar os exemplos que apresenta, dos salons da Academia Real Francesa a obras de artistas contemporâneos que trabalham aspectos arquitetônicos e/ou institucionais em sua produção, como Daniel Buren e Hans Haacke.

Christine Mello, pesquisadora de vídeo e mídias digitais e professora da Faculdade Santa Marcelina (FASM), encerra apresentando uma leitura da produção contemporânea a partir de um viés a que chama “Arte nas extremidades”, no que seria uma “tentativa de crítica sobre o estado da arte contemporânea do ponto de vista da cultura digital”. Para tal, baseia sua fala em três noções-chave: contaminação, desconstrução e compartilhamento.

Debate e perguntas

É perguntado a Duarte sobre a possibilidade de haver, nos dias atuais, “uma arte que não levasse à reflexão”. Ele responde dizendo que sim, sem dúvida “há muita arte de elevada qualidade estética que não propõe qualquer reflexão”, no que não haveria necessariamente nenhum demérito, citando indiretamente uma aclamada pintora brasileira como exemplo. Discorre mais um pouco sobre como entende a noção de poética da reflexão – introduzida em sua fala –, como sendo “uma arte que, num mundo de certezas, devolve ao corpo a dúvida, instaura o vazio”.

Christine responde a uma questão envolvendo mecanismos de percepção do mundo, reforçando o papel da “máquina como transformadora do estatuto dessa mediação”; fala também sobre imagens estáticas e um novo estatuto de temporalidade na existência atual.

Surgem algumas indagações e dúvidas de cunho mais institucional, referentes ao programa Rumos, rapidamente esclarecidas por Yara e integrantes da mesa.

A última pergunta é talvez a mais instigante: é levantada questão sobre como a arte contemporânea dialoga – ou se relaciona – com a chamada cultura popular “sem que essa relação seja folclorizada”, ou contaminada por juízos e noções estereotipantes. Trata-se de um aspecto absolutamente relevante, a meu ver, num evento protagonizado por um programa como o Rumos, que implicita em seu bojo – mesmo que involuntariamente – a problematização dessa questão.

Todos na mesa nos pronunciamos a respeito: Duarte cita Oiticica e Marepe como exemplos de artistas que operam nessa vertente “sem folclorizar”, ressaltando as diferenças entre cultura popular e arte popular. Eu faço um aparte ressaltando o que vejo como potencialmente delicado nessa aproximação, frisando que a arte contemporânea é um sistema que [se] permite a criação de mecanismos de apropriação e legitimação de produções em princípio alheias a este circuito, lançando para discussão exemplos de artistas – com graus diversos de problematização em sua obra – como Samico, Brennand, Mestre Didi e, mais recentemente, Bosco Lisboa, artista cearense que trabalha com cerâmica presente na última edição do Rumos; Christine fala da extensão do conceito de arte popular a partir do anos 1960, com o advento da pop, a intensificação da televisão etc., sugerindo que o debate passa por uma discussão sobre “alta” e “baixa” cultura. Só lamentamos não haver tempo suficiente para o desenvolvimento apropriado da questão.

Encerramos a estadia em Belém num ótimo restaurante… japonês.