Diário do Rumos Itaú Cultural Artes Visuais


Dia 2: Manaus
11 Março 2008, 9:02 pm
Arquivado em: Manaus

Seguimos para Manaus – agora sem podermos contar com a companhia de Paulo Sergio Duarte –, onde ficaremos por menos de 24 horas, infelizmente.

E aqui aproveito para fazer um rápido esclarecimento: lembrar que as viagens a serem realizadas nesta etapa do Rumos Arte Visuais, passando por 19 cidades do país, não prevêem visitas a ateliês ou encontros com artistas. Apesar de sempre contar com alguns dos curadores nas mesas, o foco destes eventos presenciais está principalmente na divulgação do Rumos Brasil afora (incluindo, naturalmente, esclarecimentos de dúvidas gerais acerca do programa, o que para olhos metropolitanos-cosmopolitas é mais importante do que possa parecer, sobretudo em áreas com menos acesso à informação), além de permitir que os curadores – que se alternam nas viagens – apresentem suas idéias e linhas de pesquisa, que provavelmente serão rebatidas nas exposições que terão lugar no próximo ano. O mapeamento propriamente dito será realizado pelos oito assistentes-curatoriais, designados para atuar localmente em suas regiões.

Manaus. Desembarco tentando conter as expectativas do que não poderei conhecer, dada a brevidade de nossa passagem. Preciso parar de pensar nesses termos (não estamos aqui a turismo, afinal), mas é difícil. Só há tempo de ir rapidamente ao afamado e grandioso Teatro Amazonas e a uma loja de artesanato local (ok, ok, talvez um pouco de turismo), num tour rápido entre o almoço e o início do evento. Não chegamos a conhecer a (extinta?) Zona Franca, que está a seis quadras do hotel, nem a sorveteria Glacial, um must local, pelo que ouvimos. Nada de passear de barco, ver o encontro de águas do Rio Negro com o Solimões, tomar tacacá no centro ou pescar piranhas.

A atividade hoje irá transcorrer no Sesc local, entidade que gentilmente abrigará também os eventos do Rumos em outras localidades.

Do evento

O prédio do Sesc de Manaus localiza-se numa rua comercial movimentada e, num relance, parece dotado de infra-estrutura razoável. O misto de anfiteatro e auditório é amplo sem ser propriamente grande, bom para abrigar eventos como o nosso ou pequenos shows (há camarins no backstage, embora um tanto precários). Os responsáveis locais pela instituição, Nilton Carlos e sua assistente Raquel, são simpáticos e atenciosos.

Paulo Reis e Christine Mello apresentam suas falas – já brevemente comentadas na primeira postagem deste tópico (em Dia 1: Belém) –, sem grandes variações, para um público razoável no confortável espaço do Sesc.

Findas as exposições, hora de participação da platéia. O povo demora um pouco para vencer a timidez e lançar a primeira questão. Quando esta vem, e por seu teor é endereçada a Paulo, trata de modo algo confuso da relação do trabalho do artista com o espaço expositivo, de um ponto de vista mais museográfico. Discutimos um pouco os problemas inerentes a um formato expositivo como o do Rumos Artes Visuais, que em suas diversas curadorias geralmente abarca um corpo considerável de trabalhos e tem que lidar com situações expositivas diversas – e não raro adversas – país afora, e de como as montagens podem afetar a leitura das obras. Comentamos ainda o papel do artista frente a este quadro, sem chegarmos exatamente a soluções, mas de todo modo alargando uma discussão que sem dúvida é procedente.

Um rapaz, que se anuncia como quadrinista [autor de HQs], indaga, após uma breve digressão acerca da cena artística local, sobre o teor de “visibilidade” que o Rumos proporcionaria a seus participantes. A mesa responde que esta não é uma premissa do programa, embora isso naturalmente ocorra, afinal trata-se de um projeto prestigioso e com ampla cobertura da mídia. A conversa estende-se para a questão dos “mapeados” (aqueles que são contatados e/ou visitados pelo programa mas que não entram na seleção final, modelo que em princípio deverá ser extinto nesta edição), quando lembramos que não é incomum que alguns destes terminem por alcançar mais visibilidade que os selecionados. Reforçamos que parte do perfil do Rumos está apoiado em certa dose de risco nas escolhas, dada a vasta amostragem de obras e artistas muitas vezes totalmente desconhecidos. Estendemos rapidamente a discussão sobre a dificuldade das HQs/comics em atingir o estatuto de “arte séria” – o que se mostra cada vez mais relativizado na produção contemporânea de quadrinhos, com potenciais “autênticos artistas contemporâneos” – e sobre quais fatores estariam por trás desta estigmatização, como o fato dessa ser uma linguagem voltada para circulação massiva, produzida em escala de reprodutibilidade industrial, etc. Uma discussão que pessoalmente me interessa, mas que talvez não seja apropriada para esta mesa.

Já nos aproximando do encerramento, um senhor interroga a mesa de modo um tanto prolixo sobre “se a arte teria transcendido o objeto artístico”, sem no entanto deixar claro seu ponto. Christine Mello responde delicadamente parafraseando Leonardo – “A arte é cosa mentale” – e afirma que sim, “a arte é linguagem e nesse sentido transcende o objeto artístico”. Paulo Reis complementa o aparte da colega citando H. Rosenberg: “a arte é metade matéria (forma), metade pensamento”. O evento é finalizado de modo simpático e caloroso, com várias pessoas da platéia procurando os palestrantes para trocar contatos e informações.

A noite é encerrada com uma modesta e memorável incursão gastronômica ao Açaí, restaurante típico local que se provou sugestão mais que acertada de nosso anfitrião, Nilton, para nos despedirmos de Manaus. Amanhã será Rio Branco.