Arquivado em: Palmas
“Em todas essas viagens, uma situação que eu tento evitar é aquela em que impressões pré-concebidas de um local que ainda não conhecemos tendem a se confirmar. Ou seja, lugares dos quais temos apenas uma idéia vaga, geralmente construída a partir de estereótipos reducionistas, e – uma vez lá – nos quais esperamos, no fundo, verificar a não-procedência de impressões tão esquemáticas. Um dos poucos locais onde isso de certa forma aconteceu foi aqui em Palmas: mesmo sabendo ser uma cidade nova [ainda não tem 20 anos de sua fundação], a capital de Tocantins não parece ter muito a oferecer a quem por lá aparece – e este é um sentimento presente mesmo na fala de vários de seus habitantes.
Incrustada no coração do estado, à margem do grandioso rio homônimo deste, Palmas – planejada ao modo de Brasília, inclusive no que tange à escala de deslocamento urbano, com superquadras, embora sem contingente populacional à altura – tem sua estrutura econômica baseada sobretudo no setor de serviços. É plana e quente, e por toda parte se vê as palmeiras que dão nome à cidade. E tem ainda o capim-dourado, claro; a magnífica formação vegetal que viceja fartamente na região e é a menina-dos-olhos do artesanato local. A mim pareceu a materialização daqueles “fios de ouro” que abundam em fábulas e similares, só que em versão mais in natura e afeita à comercialização. Uma beleza, e um sucesso absoluto entre a ala feminina da equipe, como sempre ávida por souvenirs “regionais” [ok, também comprei um objeto desse material]. Há algumas possibilidades boêmias na “orla”, a simpática praia formada à beira do rio – que de quando em quando, segundo sou informado, calha de ter suas águas infestadas por piranhas, o que pode deixar a coisa mais divertida.
Talvez sejam impressões excessivamente ásperas, filtradas pelo olhar mal-acostumado de um cosmopolita paulistano; não sei. De qualquer forma são apenas isso, impressões, e a partir de uma curta estada, como sempre nessas viagens. Pode haver alguma leviandade, ou imprecisões nesse juízo proferido de modo um tanto intuitivo. Ainda assim, é preciso dizer que há algo na cidade que desperta certa melancolia, um sentimento de ternura; não sei se a vastidão para todos os lados, seu projeto ainda incompleto, a simplicidade despojada de seus habitantes e a impossibilidade de se apreender [ainda] uma noção de identidade, o belíssimo pôr-de-sol, difícil apontar o quê. Fica uma sensação residual ambígua, de sincero prazer em ter conhecido um local tão alheio a uma cartografia que nos é mais familiar e a dúvida sobre o que o futuro reserva para a mais nova capital de estado do país.”
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