Diário do Rumos Itaú Cultural Artes Visuais


Dia 19: Salvador
20 Maio 2008, 11:24 pm
Arquivado em: Salvador

E por fim chegamos à última escala de nossa jornada, Salvador. Ufa. Foram quase dois meses de experiências intensas, várias delas memoráveis, conhecendo locais e pessoas interessantíssimos país afora. Se por um lado vem um certo alívio, por podermos retomar nossas rotinas de vida, paira também alguma melancolia; afinal, criou-se amizades e toda uma teia de afetividades dentre a equipe, e que certamente haverão de estender-se para além da sociabilidade contingencial do Rumos. Depois de compartilhar por semanas a fio traslados, esperas em aeroportos, vôos, refeições, programas turístico-culturais diversos – além das mesas de debate – como fizemos, só poderia mesmo dar em duas coisas: ou nasciam amizades ou se criavam desafetos rapidamente. Felizmente parece ter sido a primeira opção a se impor, e com o astral dessa “trupe” de fato seria difícil ser diferente. Desde o início chamava atenção a até certo ponto inusitada empatia que nasceu quase instantaneamente entre a equipe, com vários indivíduos que não se conheciam pessoalmente tratando-se como velhos amigos. Pode parecer um aspecto relativamente tolo para ser assim ressaltado, ou excessivamente “sentimental”, mas a meu ver esse “fator humano” seria um determinante para o bom andamento das coisas, especialmente pela dinâmica de convivência mais ou menos forçada a que seríamos [e fomos] todos submetidos.

Salvador veio a coroar de maneira perfeita esse final das viagens. Não apenas pelos óbvios predicados naturais e culturais locais, como pela hospedagem excepcionalmente confortável e o tradicional astral que a cidade emana. Como minha estada era curta, não me dispus a arriscar incursões pela cidade, preferindo me ater a programas mais “intimistas” – praia do hotel e leituras.

Do evento

Nossa mesa final de palestras teve lugar no Museu de Arte Moderna da Bahia. A Capela do Solar, recém-reformada, “aloja” uma interessante ocupação temporária do GIA – grupo de destacada atuação no cenário local – que toma todo seu espaço.

Não sei se por ser a última escala de uma longa série eventos, o público é surpreendentemente baixo, com não mais que uma dúzia de pessoas presentes na simpática e despojada sala de eventos. Até por se tratar de Salvador, cidade com forte movimentação artística, esperávamos uma audiência maior.

Marilia Panitz e Christine Mello são as palestrantes da noite, e as apresentações transcorrem de modo leve e descontraído. Ambas expõem suas idéias nos moldes já aqui extensamente comentados, sem grandes alterações. De resto, não há muito o que destacar. A pequena platéia, simpática e atenciosa, guarda uma postura um tanto tímida, e sua participação vai pouco além de alguns breves comentários e dúvidas mais “técnicas”. Encerramos de modo discreto; é então que algumas pessoas procuram as palestrantes para contatos ou um papo informal, no tradicional e agradável “assédio pós-evento”.

Seguimos, acompanhados de alguns artistas e conhecidos nativos da boa terra, para uma esticada com boa conversa na boêmia do Centro Histórico; a noite estava só começando. E era justo, afinal: a caravana chegava ao fim, e aquele misto de alegria e tristeza pedia uma comemoração.



Dia 18: Rio de Janeiro
15 Maio 2008, 9:24 pm
Arquivado em: Rio de Janeiro

“O Rio de janeiro continua lindo”, etc. Até por isso não será o caso de gastar linhas aqui com o momento-cidade; centrarei minhas energias na descrição do evento. Mais digno de nota, sem dúvida o ritual etílico-conversatório protagonizado por mim, Guilherme Bueno e Paulo Sergio Duarte, no apartamento deste último; uma noite memorável, de boa bebida e ótimas discussões. Passamos ao largo, felizmente, do surto epidêmico da dengue que assola a cidade [e várias outras localidades do país, diga-se de passagem].

Do evento

Paço Imperial, 18:00. À mesa comigo, Paulo Sergio Duarte e Paulo Reis, com Valéria Tolói pelo Itaú Cultural. Apesar do horário complicado – em pleno rush carioca – o auditório está cheio; quase 100 pessoas lotam a sala.

Paulo Sergio abre lembrando com afeto de sua passagem pelo Paço [como diretor], e de como aquela casa lhe é cara. Comenta a “flexibilidade” de suas falas, e a dificuldade que sente em falar justamente ali no Rio, sua cidade; fala também de sua dificuldade em “mudar de temas”, o que só faz “de 10 em 10 anos”. Risos. A partir daí comenta as mudanças na relação do homem com o mundo e a natureza na contemporaneidade, tempos de “pós-humano”, clonagem, etc; explana sobre as diferenças entre arte contemporânea e “arte atual”, e história e historicidade na AC: da não-premissa, em ambas, em “inaugurar” nada, mas como inevitavelmente carregadas de historicidade; emenda na “invenção da humanidade” como atrelada ao momento em que esta “inventa a arte” [Bataille]; e estende-se em outros tópicos, por meio dos quais PSD vai contextualizando a produção contemporânea.

Entra então na arte moderna e nas diferenças entre o sujeito moderno e o contemporâneo; fala do fauvismo e do cubismo como casos em que havia uma comunidade diversa de indivíduos movidos por uma pulsão comum, as afinidades eletivas, e desta dinâmica como um modelo de atividade que duraria até o pop e, mais pontualmente, na arte povera. A seu ver, ocorre ali um rompimento dessa linha, pela característica de individualização entre artistas que todavia compartilham de algum modo um dado ou elemento “poético”, e de como na produção contemporânea ocorreria o inverso: mesmo dentro da obra de um só artista pode-se detectar diversas linhas de abordagem e procedimentos; e das dificuldades aí inerentes para a atuação de críticos e teóricos. Estende-se nessa linha de raciocínio pela dificuldade em se localizar “mainstreams” na arte contemporânea [por conta da diversidade/pluralismo]. Aí entra nas duas polarizações que o vêm interessando há algum tempo – e já comentadas anteriormente –, a do espetáculo e a da delicadeza. Tratar-se-ia de “obras que se apresentam com contundência”, onde o espetacular não é necessariamente imbuído de negatividade; depende de como este se apresenta na obra. E da delicadeza como “entrando em atrito com o mundo”, por uma solicitação temporal diferenciada em sua contemplação, contrapondo-se ao estado de aceleração que caracteriza a contemporaneidade. Ressente-se ainda da falta de certo “atrito” na produção artística de hoje, ponto já assinalado em algumas falas anteriores, embora não se alongue em exercícios contextualizatórios acerca do que o definiria na atualidade.

Retoma então a ataraxia, noção que define a suspensão do juízo e das certezas, método que PSD vê como cada vez mais necessário no contato com a arte nos dias atuais. Encerra discorrendo sobre o vazio e suas possibilidades de restauração na experiência contemporânea; cita o ceticismo de Descartes, a angústia e a dúvida metódica como mecanismo de “fabricação de certezas”.

Por sua vez, Paulo Reis também apresenta mudanças estruturais em sua fala: altera seu mote anterior, em torno da gênese e mudanças de estatuto de espaços expositivos através dos tempos para um recorte mais atual, focando em modelos de práticas artísticas que lidam com ou se apropriam dessa noção. Faz também uma distinção entre as noções de “crítica institucional” e “crise institucional”, comentando a atuação de artistas que operam “nas frestas”, em contextos em que não há um cenário institucional conformado [como no Brasil]. Pincela tendências como a ascensão do entretenimento e da “velocidade” que dita o modo de vida nos dias atuais, parafraseando Ivo Mesquita e sua expressão “museu como lugar do retardo” como contraponto; cita Thomas Crow e Brian O’Doherty – e seu seminal No interior do Cubo Branco como referência. Faz em seguida uma fala resumida da genealogia que apresentara até então; seu ponto agora é a exposição como estatégia do artista“; lembra de Debret, responsável por organizar a primeira exposição no Brasil, ele próprio também artista; cita o evento Propostas 66 [São Paulo, 1966] como “mostra que esvazia a dicotomia abstração/figuração”.
Passa então a apresentar grupos de imagens que comenta consecutivamente; na primeira série estão registros de eventos e ações de grupos como Moto Contínuo [grupo de artistas paranaense atuante nos anos 70/80] e 3Nós3 [grupo paulistano da mesma época, especializado em intervenções urbanas – ou Interversões, como eles mesmos nominavam algumas ações]; a seguir, num módulo intitulado “O espaço-entre” surgem imagens de Nelson Leirner, Hudinilson Jr e de projetos curatoriais-expositivos “impressos”, como Premonitor, de Mario Ramiro e Love, de Regina Melim; na seqüência temos o conjunto “Espaço de conhecimento e reflexão”, onde Paulo retoma sua leitura de exposições como espaço possível de aprendizado; e finalmente vem o módulo “Ficcionalização de um sujeito colecionador/artista”, onde apresenta projetos como “O colecionador” [1996-2008], work in progress de Mabe Bethonico, a “Coleção Duda Miranda” [2005-06], de Marilá Dardot e Matheus Rocha Pitta, e o Gonper Museum, de Fabiano Gonper – todos mais ou menos convergindo em plataformas de ação a partir de construções fictícias. Menciona também nesse bloco trabalhos de Carla Zaccagnini e de Cristina Ribas, que operam a partir de acervos de instituições e de operações de arquivamento [como outros citados acima].

Debate / Participação do público

Após alguns instantes do proverbial silêncio que costuma pontuar o início da participação da platéia, surge a primeira pergunta, e ela é “para a mesa”. Uma estudante quer saber sobre “o atrito [captado da fala de Paulo Sergio] que o artista promove no público leigo [sic]“, e “quem seria leigo no quê” afinal; e se não haveria aí alguma pretensão, etc.

PSD partilha um pouco de sua [vasta] experiência na área de educação pública, onde ele diz ter visto professores/as que se relacionavam com seus alunos de uma maneira que considera ingênua e imprópria, no que chama de “resistência em compreender o outro”. Afirma que o que ele chamou de “leigo” se deve em boa medida ao fenômeno de consumo massificado de imagens [faz um aparte sobre a Rede Globo], que colabora na geração de um “olhar embrutecido” [outro bordão seu], não preparado para ver arte; se estende na potência cognitiva de certas obras e da experiência da repetição [de contato com a arte] como determinante para uma compreensão ou fruição adequada da obra de arte. Aí emenda numa crítica àqueles que diz “usarem o metro [enquanto instrumento de medição] errado, do modernismo”, para “medir arte contemporânea”; algo surpreendentemente, passa a criticar abertamente a figura de Ferreira Gullar, a propósito deste mote [discretos risos catárticos em off em toda a sala; a mesa vibra]; cita a “estupidez” daquele ao comentar desdenhosamente, na imprensa, trabalho de Tunga que sequer chegou a ver [Lâmina das Almas]. Retorna então ao atrito ou fricção: a fricção vem da potência poética do trabalho e de sua condição de inadequação ao mundo [sempre imanente e involuntária]; cita trabalhos de Cildo e Barrio [dos anos 60/70] como exemplos mais candentes desta linha de abordagem [e talvez um tanto literais, a meu ver; embora ótimos, seria interessante ter exemplos mais "atualizados" para ilustrar as possibilidades deste atrito hoje].

A seguir, mais uma pergunta sobre educação, arte e escola para Paulo Sergio. Ele afirma que nosso sistema educacional é péssimo, “só não perde para o Haiti”; e que a única forma de fazer a arte entrar na escola é sendo incorporada na construção das próprias metodologias de ensino, de modo mais estrutural; e não “virar recreio”, como parece ser a tônica no enfoque da aula de “artes” de modo geral. Do atual modelo, acha que “vai do nada a lugar nenhum”; é bem veemente, falando do alto de seus anos de experiência na Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro; reforça a necessidade de um modelo de mentalidade que veja na educação não uma “despesa”, mas um investimento.

Guilherme Bueno, assistente-curatorial deste Rumos, está na platéia e faz um aparte comentando a historicização da arte [na fala de PSD], citando Tassinari e seu postulado segundo o qual ainda estaríamos “numa segunda modernidade”. Emenda em Rimbaud e a “necessidade absoluta de ser moderno”, ao que agrega a necessidade de “recolocação do que é história e o que é historicidade”, embutindo a ataraxia nesta proposição. Neste ponto, Guilherme se estende em sua intervenção de modo cada vez mais prolixo [e longo], a ponto de eu não ser mais capaz de captar seu enunciado com a clareza [e rapidez] necessária, pelo que me desculpo com os leitores; ao final, eu e a platéia não estamos certos se Bueno fez uma pergunta ou tratou-se de uma colocação, embora certamente muito articulada e repleta de pontos instigantes [não é ironia, atenção]. Paulo Sergio então responde [?] comentando o ponto da “persistência da modernidade”, discorrendo sobre a impossibilidade de ser moderno hoje [em contraponto ao que seria isso no século 19] e um “excesso de crises” que o incomoda: do sujeito, da representação, etc. Diz “ver crises” em todo lado, dando vários exemplos; “o modus vivendi do ser moderno subentende um estado ou condição de crise”; mas houve inúmeras alterações nessa relação durante o século 20 até o advento da contemporaneidade, naturalmente. Foca na questão trabalho/forças produtivas, apontando exemplos da perversa sofisticação que se dá nesse âmbito na era contemporânea, enfatizando a indústria bélica; tem-se então um horizonte muito mais amplo do que aquele que fundou a modernidade. Comenta a mudança também na produção de valor, da ciência e das conquistas civis e transformações epistêmicas; fala da “Fábrica” ["Factory"] de Warhol, “reafirmando a produção de arte em escala industrial”, ao que acrescenta a consciência do desaparecimento do sujeito e de sua permanência. Toma fôlego e resgata Argan e seu bordão “a arte é uma cultura sem progresso”, a partir do qual Paulo Sergio estabelece um paralelo com a ciência [essa sim uma área onde cabe a noção de progresso ou "evolução"]. Ufa. Falou por quase 40 minutos, ininterruptamente.

Encerrando a noite, Felipe Scovino [instado por PSD] indaga a mesa sobre o trabalho no Rumos, a dinâmica de mapeamento e quais as possibilidades curatoriais naquele formato. PSD afirma que a “principal diferença é não ter diferença”, dizendo ter mantido certa continuidade no modelo [em relação a edições anteriores] e que acha bom o novo limite de 45 portfolios [ao invés dos mais de 70 da última edição] podendo ser inscritos. Estende-se comentando critérios de seleção, defendendo “a qualidade acima de tudo”. Paulo Reis complementa na mesma linha, falando de sua experiência anterior no Rumos e da importância que vê no dado da pesquisa; fala também de um componente “bourdieusiano” [referindo-se à linha de pesquisa de Pierre Bourdieu] neste processo, embora sem maiores especificações; aproveito a deixa para comentar, a partir da referência a Bourdieu, as espinhosas questões envolvendo identidades culturais, “regionalismos”, leituras esquemáticas e dominações simbólicas num projeto como o Rumos – discussão recorrente nestas viagens mas nunca suficientemente aprofundada, a meu ver.

Aí nos damos conta de que ultrapassamos em muito o tempo previsto para o evento, e decidimos encerrar. Foi uma noite ótima. Agora só falta mais uma escala – Salvador…



Dia 17: Palmas
8 Maio 2008, 9:21 pm
Arquivado em: Palmas

“Em todas essas viagens, uma situação que eu tento evitar é aquela em que impressões pré-concebidas de um local que ainda não conhecemos tendem a se confirmar. Ou seja, lugares dos quais temos apenas uma idéia vaga, geralmente construída a partir de estereótipos reducionistas, e – uma vez lá – nos quais esperamos, no fundo, verificar a não-procedência de impressões tão esquemáticas. Um dos poucos locais onde isso de certa forma aconteceu foi aqui em Palmas: mesmo sabendo ser uma cidade nova [ainda não tem 20 anos de sua fundação], a capital de Tocantins não parece ter muito a oferecer a quem por lá aparece – e este é um sentimento presente mesmo na fala de vários de seus habitantes.

Incrustada no coração do estado, à margem do grandioso rio homônimo deste, Palmas – planejada ao modo de Brasília, inclusive no que tange à escala de deslocamento urbano, com superquadras, embora sem contingente populacional à altura – tem sua estrutura econômica baseada sobretudo no setor de serviços. É plana e quente, e por toda parte se vê as palmeiras que dão nome à cidade. E tem ainda o capim-dourado, claro; a magnífica formação vegetal que viceja fartamente na região e é a menina-dos-olhos do artesanato local. A mim pareceu a materialização daqueles “fios de ouro” que abundam em fábulas e similares, só que em versão mais in natura e afeita à comercialização. Uma beleza, e um sucesso absoluto entre a ala feminina da equipe, como sempre ávida por souvenirs “regionais” [ok, também comprei um objeto desse material]. Há algumas possibilidades boêmias na “orla”, a simpática praia formada à beira do rio – que de quando em quando, segundo sou informado, calha de ter suas águas infestadas por piranhas, o que pode deixar a coisa mais divertida.

Talvez sejam impressões excessivamente ásperas, filtradas pelo olhar mal-acostumado de um cosmopolita paulistano; não sei. De qualquer forma são apenas isso, impressões, e a partir de uma curta estada, como sempre nessas viagens. Pode haver alguma leviandade, ou imprecisões nesse juízo proferido de modo um tanto intuitivo. Ainda assim, é preciso dizer que há algo na cidade que desperta certa melancolia, um sentimento de ternura; não sei se a vastidão para todos os lados, seu projeto ainda incompleto, a simplicidade despojada de seus habitantes e a impossibilidade de se apreender [ainda] uma noção de identidade, o belíssimo pôr-de-sol, difícil apontar o quê. Fica uma sensação residual ambígua, de sincero prazer em ter conhecido um local tão alheio a uma cartografia que nos é mais familiar e a dúvida sobre o que o futuro reserva para a mais nova capital de estado do país.”



Dia 16: Belo Horizonte
6 Maio 2008, 9:10 pm
Arquivado em: Belo Horizonte

Quaisquer programações ou fatos pitorescos nessa passagem por Belo Horizonte, por mais dignos de nota que sejam, se tornam fatalmente eclipsados por nossa ida ao famigerado CACI – Centro de Arte Contemporânea Inhotim [Marilia Panitz e eu]. Mesmo me considerando “pré-preparado” para a escala superlativa que o lugar impõe – seja por suas dimensões, pelo apuro de suas instalações, a majestade de seus jardins, como pelas obras de arte em si – não há como conter certo deslumbramento: é de fato uma experiência fabulosa. O assombro da visita a essa “Xanadu das artes” foi reforçado pelo fato de lá estarmos em um dia semi-fechado, de acesso restrito a público escolar – cuja presença no entanto [felizmente] mal percebemos [aproveito aqui para deixar um agradecimento especial a Janaina Melo, coordenadora da ação educativa do CACI e assistente curatorial nessa edição do Rumos, que carinhosamente viabilizou esse nosso passeio]. Não me estenderei aqui em pormenores, até pelo assunto render por si só um bom artigo à parte; basta dizer que, dentre as galerias de mostras temporárias, as obras [e que obras] saborosamente dispersas nos jardins [e que jardins] e os pavilhões individuais, incluindo dois novíssimos [de Doris Salcedo e Adriana Varejão], trata-se de uma oportunidade única – ao menos no Brasil – no contato com uma produção nacional e internacional de alta qualidade. Não há como sair incólume, por exemplo, da experiência de sair de salas como a de Janeth Cardiff [uma "epifania estético-sonora"] e, ainda com aquilo na cabeça, emendar em duas, três galerias permanentes abrigando grandes instalações de Cildo, montadas dignamente, e na sequência se defrontar com o Samson de Chris Burden… lembrou-me um pouco a Fundação Serralves, no Porto, de perfil similar [com Serra, Oldenburg e Dah Graham nos jardins, este último também presente no CACI]. Só que aqui em escala consideravelmente ampliada – inclusive do ponto de vista botânico, aspecto muito valorizado e evidenciado em Inhotim.

Outro dado que chama a atenção é o fato de, após a assimilação do “choque” inicial e apesar de toda uma estrutura logística e de atendimento minuciosamente funcional, perceber que ainda se trata de uma empreitada em andamento: há um grande pavilhão destinado ao setor educativo em plena construção [no interior de um dos lagos, temporariamente esvaziado para esse fim], por exemplo, além de outros planos grandiosos de expansão que ouvimos ser comentados…vamos ver.

Do evento

O auditório do Palácio das Artes que nos coube está parcialmente cheio; achamos a afluência de público razoavelmente tímida, para uma cidade com a movimentação artística como Belo Horizonte. Na mesa, estão hoje Marilia Panitz e Paulo Sergio Duarte, além de Valeria Toloi, representando o Itaú Cultural.

Paulo Sergio inicia sua apresentação contextualizando o dado da singularidade em se falar em cada local, para lembrar que boa parte da história da arte brasileira foi feita ali, em Minas Gerais, lugar com alta densidade histórica no campo da arte. Passa então a comentar as confusões usuais, no meio, sobre a arte contemporânea e a “arte atual” [talvez uma referência às distinções propostas por Anne Cauquelin?], os impasses e relativismos em torno da contemporaneidade; fala em seguida das transformações no próprio projeto ético-moral da humanidade, a partir do holocausto e das bombas atômicas, “fechando” na queda do Muro de Berlim.

Fala de seu livro Transformações [dificílimo de se achar hoje em dia], e da cronologia dos anos 60 como “começando de fato” em 1956, com a morte de Pollock e a ascendência de Johns e Rauschenberg; volta a afirmar, que não vê a arte como um “vetor do progresso”, retomando também a imagem de “camadas”/sedimentação. Fala de um processo de “antropofagia” que também teria ocorrido na arte norte-americana do pós-guerra, em boa parte fundada a partir de referenciais europeus; e do “preço a pagar” por alguns desses artistas [o suicídio de Rothko e o "quase" de Pollock, a crise de Barnett Newman sem conseguir comercializar sua produção]; emenda no que considera “a inteligência pop” em suas operações, que só teria se constituído com sua força por conta desse cenário “abstrato” anterior, mais a sociedade de consumo avançado; e concede uma contrapartida pra a cena norte-americana por meio do que chama “generosidade cultural”, que teria permitido o desenvolvimento da cultura do jazz, etc.

Passa então ao suposto “cinqüentenário” da arte contemporânea [a se dar no próximo ano], citando Lygia e seus Bichos como marco da arte moderna, “abrindo portas espaciais para a escultura contemporânea”; emenda em Oiticica pelo mesmo viés, como sendo outro “sinalizador” da transição moderno-contemporâneo; e não se furta a lamentar a “carga histórica inerente à densidade poética dos trabalhos” que é negligenciada por colegas historiadores.

Retoma então a “estrutura clássica” de sua fala; cita R. Schwarz e suas “idéias fora do lugar”, como “idéias que viajavam”, informando a periferia pós-colonial; demora-se um pouco em relatos sobre a estrutura nobiliárquica no Brasil do século 19; “volta” também à Semana de 22 e à idéia de “arquipélagos” [que também dá título a sua fala], com “ilhas de talento”; e que só se consolidariam em “continente” nos anos 1950 [com a conformação do projeto construtivo no país]. Um dos fatores que incidiriam nessa formação “insular” estaria, segundo ele, na “falta de comunicação formal” entre obras de Tarsila, Goeldi e Di Cavalcanti, por exemplo; aí vem a “descontinuidade” que chega com a Nova Figuração, e as diferenças de registro entre a produção daqui e a made in USA [a pop]; do dado político da produção daqui; fala da obra de Antonio Dias e de uma matriz construtiva possível, a partir de 68, [as "pinturas-esculturas"]; ressalta a produção brasileira, a partir dos anos 60, que assimila o dado construtivo “mas não o cita” [e artistas como Sued e Michalany, como ficam?]; fala da arte com “rigor moderno” e “formalização contemporânea” [talvez seu grande mote, afinal], da utopia construtiva e seu legado formal; encerra, enfim, lançando muito brevemente sua hipótese-plataforma estética da poética da reflexão.

A seguir vem Marilia Panitz, que introduz sua fala e apresenta seu tema “Arte e critica: aproximações” – já comentado anteriormente -, em que introduz a crítica de arte como disciplina auto-questionadora [acerca de seu estatuto], passando então à análise de casos que ilustra em paralelo à fala. Inicia citando Argan [em seu Arte e Crítica de Arte] e a perda do caráter ou juízo judicativo, na atividade da crítica, em detrimento do tônus “explicativo” apontado como tendência pelo teórico italiano, e de sua subseqüente propensão a “se tornar filosofia”; prossegue comentando casos famosos de aproximação entre artistas e críticos, com diferentes registros entre si; sugere que Duchamp seria uma espécie de precursor na aglutinação das funções de artista-pensador-curador, notadamente em suas propostas de intervenções instalativas avant la lettre [e provocativas] nas mostras surrealistas [de????]; torna a falar de artistas que articulam certa “escritura da obra” a partir de suas poéticas e da fundação de uma “pedagogia da imagem”; demora-se um pouco mais comentando a relação entre Paulo Herkenhoff e Cildo Meireles, em que se desenvolve uma dinâmica de proposições e “respostas” que Marilia vê como exemplo de frescor e estímulo mútuo para uma leitura ampliada da práxis crítica. Destaca ainda, nesse contexto, a atividade “híbrida” de Ricardo Basbaum e as parcerias entre artistas e teóricos em projetos de publicações como Malasartes e A parte do fogo. Encerra com um bloco de imagens que reúne frutos/resultados de sua intensa colaboração com o grupo Gentil Reversão, em que desenvolve experimentações teórico-expositivas com artistas de Brasília, em uma “dinâmica orgânica”. Destaca ainda alguns resultados de uma parceria mais próxima que mantém com o artista Gê Orthof [também integrante daquele grupo],

Debate / Participação do público

A primeira intervenção é uma dúvida, e diz respeito a “trabalhos em pintura figurativos terem menos chances” [!] num programa como o Rumos [questão curiosamente recorrente, ainda que com variantes, em nossos eventos]; Marilia responde que é equivocado pensar em termos de a “pintura não ter lugar” na contemporaneidade, etc.; Paulo Sergio afirma algo eufemisticamente que mesmo trabalhos “ultra-contemporâneos”, em vídeo ou outros mídias digitais, por exemplo, podem demonstrar que “o artista viu Cézanne”; aí aproveita para elencar um consistente rol de artistas pintores na atualidade.

Surge a seguir uma colocação acerca do texto “Os arquivos da arte moderna”, de Hal Foster [em Design and Crime, creio], e se a fala de PSD “reverberaria para além da cena brasileira”. PSD responde pelo paralelo já feito antes [nas primeiras mesas] entre Alemanha e Itália, apontando rebatimentos possíveis em sua poética da reflexão, etc. Diz que o grupo da revista October [a propósito de Foster] teria “afrancesado” demais a crítica de arte norte-americana, e que eles “vêem chifre em cabeça de cavalo”; fala ainda de uma suposta tendência de revalorização do minimalismo, a seu ver por este movimento ser um fio condutor para “o resgate de uma idéia moderna” [observação que acho interessante].

Pede-se então que a mesa opine sobre performance, e “de quando o registro se torna a obra de arte”. PSD começa por lembrar as diferenças de nuance na noção de registro na arte; que às vezes pode ser arte, às vezes não; aí se permite divagar citando Liszt e o relativismo do registro em outras épocas; na performance como podendo ser documento e memória da performance, etc.; Marilia complementa indagando sobre a questão desta produção entrar [ou não] em acervos e situações correlatas; “o artista deve se colocar sobre como pensar essa idéia de registro”, inclusive como forma de montar um bom portfólio, lembra.

Uma última manifestação do público: uma jovem indaga a Paulo Sergio se ele teria “uma segunda hipótese” [referindo-se à "poética da reflexão" como a única aventada por PSD]; o coordenador do Rumos aproveita para tergiversar, em tons críticos, sobre curadorias/enredos que transformam obras de arte que “passam a protagonizar certas narrativas curatoriais”; fala sobre a perda de medidas e proporções no mundo de hoje. A 2ª. hipótese poderia ser então a da capacidade da sociedade se diluir em diversas periferias, constituindo redes, etc.; encerra defendendo o modelo de bolsas para artistas.



Dia 15: Vitória/Vila Velha
5 Maio 2008, 9:02 pm
Arquivado em: Vitória/Vila Velha

Na aproximação ao aeroporto de Vitória, o avião arremete não uma, mas duas vezes. Contrariando o sentimento geral de inquietação contida ou disfarçada [ou nem tanto, como percebi atônito no sujeito a meu lado, que se postou numa clássica posição de pânico, com a cabeça entre os joelhos], achei ótimo: aproveito os sobrevôos imprevistos para fazer fotografias de trechos da orla próximos à capital, especialmente de uma praia que julgo ser aquela na qual morei por mais de década, até meados dos anos 80, no que considero um período inesquecível em minha vida. Já em solo, constato com certa frustração que a cidade ainda guarda algumas das características que nos faziam pensar nela como uma capital provinciana [no mau sentido], mais de vinte anos atrás, a começar pelo próprio aeroporto, ainda precário e de péssima estrutura. Essa impressão seria alternadamente reafirmada e desmontada por exemplos e situações diversos; os aspectos positivos mais evidentes ficam por conta do aparente investimento e melhorias no urbanismo da ilha que dá nome à capital capixaba.

De resto, o capixaba não muda: segue sendo um povo cordial, receptivo e absolutamente desprovido de traços culturais marcantes [exceção feita à afamada e deliciosa torta capixaba] – nem sotaque eles têm! E ainda mais estranho, comemoram o título de campeão do futebol carioca [conquistado pelo Flamengo no domingo em que chego] como se fosse “deles”, com carreatas e buzinaço pelas ruas… Curiosíssimo, embora deva-se lembrar que se trata de um estado encravado entre três potências no quesito “identidade cultural”: Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia.

De qualquer forma, o evento se dará em Vila Velha, cidade vizinha e tecnicamente integrando a Grande Vitória, e onde agora se chega em menos de 15 minutos, graças à famigerada Três Pontes, empreitada de que ouvia falar ainda na minha infância em Vitória – sem exagero. Uma ponte que custou três vezes seu valor [dizem] e quase duas décadas para se concretizar; mal contenho minha emoção ao cruzá-la, contaminado que estou por essas lembranças. Antes disso, a experiência de deslocamento entre as cidades era algo assim como tentar acessar Niterói, vindo do Rio de Janeiro, sem a ponte que todos conhecemos. E agora, vupt!, antes que me dê conta já estou em plena Praia da Costa, espécie de versão modesta de uma Ipanema de Vila Velha.

Do evento

A mesa será realizada nas dependências do Museu da Vale do Rio Doce, instituição que afinal pôs Vitória/Vila Velha no mapa das artes brasileiro. Apesar do acesso algo inóspito [pouquíssimo convidativo para quem não estiver motorizado], na região do porto, e de se tratar de uma segunda-feira à noite, o público comparece em excelente número, o que nos surpreende da melhor maneira.
À mesa comigo, Christine Mello, Paulo Sergio Duarte e Valéria Toloi, esta última do Itaú Cultural. Por conta de Paulo Sergio literalmente estar chegando do exterior naquele momento, optamos por dar-lhe mais tempo para se recompor e é então Christine a abrir as palestras, apresentando sua fala “Arte nas extremidades”. Já comentada anteriormente, trata das condições híbridas em que se dá hoje a arte contemporânea, chamando a atenção para “processos descentralizados de ação artística” e suas novas formas de organização, com redes comunicacionais, etc. Sobretudo estes últimos aspectos são articulados a partir da tríade de conceitos desconstrução, contaminação e compartilhamento, que ela lê em chave ampliada e ilustra com exemplos visuais [vídeos de artistas e projetos na internet]. Termina defendendo a atividade artística como um “procedimento de ação inter-sígnica”, um “fluir de ações” cientes de sua incompletude, apontando para os processos limítrofes de sua existência – as extremidades do título da fala.

Talvez aproveitando o mote que surge ao final da exposição de Christine, Paulo Sergio retoma a idéia de incompletude para se referir à arte, agora num registro mais eminentemente filosófico; da arte como a “parte de nós mesmos” que nos falta, o “ser” e o “não poder ser por inteiro”, e da impossibilidade dessa “inteireza” como o que impulsiona a produzir arte. Cita também uma imagem recorrente em sua fala, a da “arte em camadas”, como um processo que se dá por sedimentação, quase oposto à noção de “progresso”, que vê como problemática quando aplicada à arte. A seguir demora-se comentando elogiosamente a exposição de Hilal Samir Hilal – mais notório artista capixaba e por muito tempo o único nome do estado a ter visibilidade nacional – que esteve em cartaz ali mesmo, no Museu da Vale; afirma que a mesma era emblemática de dois vetores que considera importantes [e que sabemos serem objeto de interesse especial por parte de Paulo Sergio], o do espetáculo e da delicadeza. Estende-se numa maior conceituação do que entende por essa delicadeza, sobretudo em tempos em que impera o “olhar leigo embrutecido” [a essa altura de nossa caravana já praticamente um saboroso bordão em sua fala]; esta se apresentaria como um contraponto, uma poética que “nada contra a corrente”. O que o leva a dizer que se ressente da perda ou falta da capacidade de atrito em boa parte da produção dos dias atuais, usando a expressão “trabalhos que já vêm com texto” para tentar ilustrar este estado de coisas, citando ainda Cildo como exemplo de artista que buscava aquela pulsão de atrito; e encerra retomando o tópico “lacunas na institucionalização da arte” no Brasil e a debilidade de mercado como fatores que paradoxalmente impulsionam a produção artística no país [também já comentado em relatos anteriores].

Debate / participação do público

É feita uma colocação, a partir do que se falou “da arte e da vida contemporânea” como possível determinante de um tempo de produção também mais acelerado por parte do artista. Christine responde recorrendo à noção de “vazio” e afirmando não ser um problema da arte ter que responder às demandas desse “novo”; comenta os novos mídias e tecnologias – sua área de especialidade – ressaltando não ver como premissa se recorrer a estes procedimentos neste processo; PSD observa que “o olho e o pensamento podem ser pré-modernos”, independentemente dos equipamentos ou meios que se utilize; discorre sobre a TV “da época em que não havia videoteipe”, e “de formas antigas e pré-modernas de se filmar futebol”; termina lembrando que mesmo quem faz pintura se vale de recursos ou procedimentos eminentemente ancestrais e nem por isso etc. O que o leva à questão das muitas “mortes da pintura”, o que de modo geral considera uma tolice; cita Harold Rosenberg e seu A tradição do novo como emblemático da falência ou no mínimo relativismo em torno desse tipo de argumentação, e isso já há 50 anos.

A seguir, é instado a comentar “qual seria o pólo da delicadeza”, ou “qual seria o vetor que move esse pólo”; diz então que seriam os vetores que se manifestam ou evidenciam como opostos ao da brutalidade, ressaltando que os modos variam muito; elenca trabalhos de Fernanda Gomes e Brigida Baltar como exemplares desta sua possível plataforma estética; “a delicadeza se faz presente e contraria a brutalidade do mundo”, resume. Seguem-se comentários gerais, de todos na mesa, acerca das polaridades “espetacular” e “delicadeza”; potencialmente opostas mas não necessariamente incompatíveis ou antitéticas, arrisco, ao que PSD aquiesce.

Uma última colocação da platéia, também endereçada a Paulo – o que compreensivelmente se mostrou uma tônica em todas as mesas – o inquire sobre “o impacto da mercantilização na produção contemporânea”. PSD responde falando do rebaixamento do estatuto da arte” e da mercantilização que se dá também no campo simbólico, citando as “mostras de encomenda” do [museu] Guggenheim e “o museu que fica parecido com o shopping” [e nunca o contrário], etc.

E ficamos assim. Agora é aproveitar algumas horas de descanso antes de seguir para Belo Horizonte, pela manhã.