Arquivado em: Porto Alegre
Porto Alegre – eis aí uma cidade sempre gostosa de se visitar. Passamos uma tarde muito agradável no Torreão, simpático espaço informal já devidamente estabelecido na cena artística da capital gaúcha. E não apenas como local de propostas expositivas: também como pólo formador e agregador de discussões, em boa parte devido à ação intensa de seu criador, Jailton Moreira, com quem conversamos demorada e prazerosamente. No dia seguinte, o programa cultural-gastronômico básico não podia deixar de envolver o tradicional passeio no Mercado Central, seguido de visita a uma ou duas exposições antes.
Do evento
Chegamos ao Centro Cultural Érico Veríssimo, que nos recebe hoje, com emocionante pontualidade, para não dizer simplesmente em cima da hora: após um confuso périplo de táxi, que envolveu a descoberta de localidades “homônimas” [mas distantes uma da outra] na cidade, tivemos que cumprir boa parte do percurso a pé, o grupo todo.
O auditório do local é bem aparelhado e muito confortável. O público é que decepciona: sobretudo pensando que estamos em Porto Alegre, cidade que abriga uma cena artística de considerável vitalidade, causa estranheza o comparecimento de apenas 20 e poucas pessoas. O fato de ser uma sexta-feira à noite talvez seja um atenuante, mas não basta para explicar a audiência bem abaixo de nossas expectativas.
Hoje falam Marilia Panitz e Alexandre Sequeira. Ambas falas seguem de modo geral a estrutura de apresentações anteriores, já por mim resumidas. Um dado novo na fala de Marilia surge quando ela comenta sua atuação junto ao grupo Gentil Reversão, que integra com cinco artistas [de Brasília]: hoje, ela assinala um interesse comum pela literatura no grupo como um todo, chave de leitura de fato muito presente nas proposições/exposições por ela apresentadas. Já tinha intuído certa narratividade nas imagens das mostras, e esse dado corrobora essa impressão anterior. Detém-se ainda de modo mais demorado na colaboração estreita que ela mantém com [o artista] Gê Orthof, apresentando alguns resultados dessa parceria, como exposições e até um livro sobre o artista. A partir dessa experiência, Marilia encerra assumindo sua “dificuldade no distanciamento”, referindo-se a uma relação de cumplicidade que vê como estimulante na relação crítico/a-artista, retomando a ligação de proximidade entre Baudelaire e Delacroix, que cita no início de sua fala.
Já Sequeira tem uma estrutura de fala que não dá muita margem a inovações – no que não há qualquer problema, diga-se de passagem; afinal, trata-se sempre de diferentes públicos a cada cidade. Introduz sua fala detectando afinidades entre a cena de porto Alegre e de sua Belém, sendo ambas cidades grandes e de intensa mobilização artístico-cultural mas ainda carentes em certos aspectos, como na consolidação de um mercado para arte contemporânea [embora] e de mais críticos atuantes em âmbito local. Passa então a seguir seu roteiro habitual, em que oferece uma panorâmica da movimentação artística paraense desde os anos 1980 e enfatizando as possibilidades de superação das adversidades inerentes a um contexto mais “periférico” a partir da incorporação de dados locais na produção, aspecto que procura destacar em sua fala.
Debate – Participação do público
A platéia, que já é pequena para nossas expectativas, hesita em se pronunciar. Algumas pessoas comentam a própria questão desse “esvaziamento”, atribuindo o fato a falhas na divulgação; outros discordam – não há consenso.
Surge então uma pergunta-comentário sobre o dado regional da cor, sensível na apresentação de Alexandre, e da dificuldade em “se atingir um distanciamento para ter um olhar sobre isso”. A mesma pessoa emenda ainda uma colocação para Marilia, que ela comentasse o “viés crítico de texto” que aparece em sua fala. Alexandre começa afirmando que a Amazônia – e o Pará se inclui nessa região – ainda hoje convive com diferenças culturais intensas [barcos, as culturas indígenas, etc]; e que, além da luminosidade característica do trópico, há outros fatores que são determinantes nessa “presença da cor”, como as condições atmosféricas/climáticas, a imensidão de águas que a região, expressões urbanas, a “cor que também transborda na música” [em manifestações como a conhecida “guitarrada”], assumindo que algum dado caribenho também pode pode ter entrado nesse caldeirão.
A seguir, Marilia diz “haver uma potência na imagem que permite a convivência de paradoxos”; afirma ainda que a crítica contemporânea não se estabelece como afirmativa, mas como versão – formato que a interessa, frequentemente citado em suas falas como um dos caminhos possíveis para a crítica de arte na atualidade.
Uma moça tem uma dúvida acerca da itinerância prevista no Rumos, e se alguma dessas mostras passaria por ali; a intervenção mostra-se algo confusa quando começa a indagar também sobre mostras do Itaú Cultural viajarem, etc. Nada que Yara Kerstin não esclareça sem maiores problemas; e assim termina nosso tour pelo sul do país.
A noite ainda seria fechada em grande estilo a partir de indicação da nativa Gabriela Mota: jantar no Atelier de Massas, reduto da boêmia descolada gaúcha especializado em…pasta italiana, naturalmente – e que massas, para deleite geral. Até a espera de uma hora, em pé na rua, é esquecida depois da primeira garfada. Que churrasco que nada, tchê!
Arquivado em: Curitiba
Curitiba é a cidade de Paulo Reis, um dos curadores desta edição do Rumos e colega de viagem recorrente nessa caravana. Natural, portanto, que ele aqui assuma também a função de cicerone informal da equipe, levando-nos para um rápido tour gastronômico-cultural na única tarde que temos na cidade. Almoçamos muito bem no centro histórico da cidade e emendamos num périplo que inclui visita a alguns dos bons sebos curitibanos e duas exposições em cartaz, com jovens artistas locais [mostras do programa Bolsa Produção, que será comentado mais adiante]. Mal há tempo para voltar ao hotel para uma ducha e seguir para o local do evento, a Casa Andrade Muricy.
Do evento
O espaço, tradicional reduto de eventos ligados à arte na capital paranaense, é excelente: amplo e confortável, abrigando com sobras as mais de cem pessoas na platéia.
Alexandre Sequeira abre sua fala ressaltando seu interesse pela diversidade da produção artística país afora, para em seguida passar a seu mote, em que apresenta um panorama da arte contemporânea paraense. A apresentação segue à risca a linha já comentada aqui anteriormente, pelo que não me estenderei novamente em detalha-la. Chama a atenção, no caso da cena de Belém, a importância ou influência exercida pela fotografia na ativação da cena local, ao que Alexandre se refere como linguagem ou instrumento que “chama para a discussão”.
Na seqüência, retomando sua apresentação “Arte e crítica: aproximações”, fala Marilia Panitz. Comenta as exposições que viu na cidade, pouco antes, elogiando o programa de bolsas para artistas promovido pela prefeitura local, o Bolsa Produção.
Entra então em sua fala propriamente dita, que, a exemplo da de Alexandre, segue estrutura já amplamente descrita aqui, localizando a discussão de “arte e crítica” em Argan e seu Arte e crítica de arte e subseqüentes problematizações acerca do estatuto da atividade da crítica. Lança diversas indagações sobre que modelo de crítica se mostraria mais adequado ou capaz de abarcar a produção contemporânea; se não seria o caso de recorrer à “voz do outro” cita Greenberg e sua autoridade, primeiro, e sua paixão pela obra por outro lado; movimento simultâneo de proximidade e distanciamento [com Pollock]. Ressalta o registro da cumplicidade entre críticos e artistas como indicador de um caminho para a crítica atual;
Termina mostrando imagens de projetos curatoriais divididos com artistas que acompanha há tempos, em que fica patente o interesse de Marilia em explorar os limites na atuação como crítica e curadora, no papel que define como sendo o de “uma leitora crítica”. Dá destaque para projetos que desenvolve em colaboração com Gê Orthof [artista residente em Brasília, como ela], com quem mantém um diálogo mais intenso e um acompanhamento mais sistemático da produção [cujo resultado mais recente foi uma exposição do artista com curadoria de Marilia na agenda dita "´paralela" da Arco deste ano, em Madri].
Debate / participação do público
Após alguma timidez na platéia, Artur Freitas, teórico e professor da UFPR, pede a palavra e faz algumas colocações; a partir da fala de Marilia, comenta mostra antiga de Cildo [na Petit Galeria] que ocasionou uma “resposta” unusual de Frederico Morais [crítico], com uma intervenção deste. Então lança para Marilia e Alexandre uma questão: como os dois vêem a [possibilidade de] atividade crítica na curadoria de um evento como o Rumos? Alexandre diz que irá responder à “fala” dos artistas/obras selecionados, única maneira que vê como possível para lidar com essa situação. Marilia elogia a pergunta e retoma suas próprias passagens anteriores pelo Rumos, com graus diversos de atuação nos 3 momentos, reconhece algumas insuficiências no formato mas vê possibilidades a partir da amostragem de obras inscritas/selecionadas; os muitos olhares, a subjetividade de discursos e afinidades, um consenso possível na noção de qualidade…
Artur então estende a pergunta para mim; estendo-me sobre o que vejo como certa busca por rigor em relação à atividade da crítica de arte, ou antes com o emprego do termo em si; a meu ver relativizada e confundida com “escrita sobre arte” e jornalismo cultural, etc;
Em seguida é feita uma observação sobre a importância do emprego do juízo [de valor] no que tange à arte, estendendo ainda sua circulação no mercado de arte; Marilia ressalta a importância da instância do julgamento de valor, inclusive em galeristas/comerciantes de arte, no que chama de “se colocar um entre outros”. Alexandre complementa mencionando o fator da aposta em artistas [com acertos e erros, naturalmente] como estimulante, etc., ao que Marilia retoma indagando o já citado modelo do projeto de bolsas artísticas local. Uma moça na platéia se identifica como coordenadora do projeto e dá mais detalhes sobre o mesmo, do processo de acompanhamento da produção e das exposições como resultado deste processo, etc. Diz ainda que o edital do projeto não tem qualquer fator excludente, seja etário, tempo de trajetória.
Ainda há tempo para mais algumas dúvidas técnicas, referentes ao edital, rapidamente esclarecidas por Valéria Toloi. Finalizando, surge uma questão para a mesa nos termos de que impressão teriam os palestrantes sobre “artistas que produzem na rua”, etc [a cena de Curitiba parece ser forte nesse quesito]. Alexandre se pronuncia relatando alguns casos da cena de Belém, inclusive em torno do salão [Arte Pará?] coordenado por Paulo Herkenhoff, que já teve boas propostas nessa linha; reluta, contudo, em colocar essas manifestações como uma tendência, ao menos na cena paraense. Marilia emenda comentando o caráter democrático deste tipo de manifestação, que diz ver com interesse.
Encerramos a noite jantando num ótimo – embora um pouco acima do nosso, ou ao menos do meu orçamento médio – restaurante ucraniano-polonês, com a presença de alguns artistas e teóricos locais. Em meio a boa conversa e excelentes vodkas, variêniquis e pieroguis, nos despedimos da capital paraense em grande estilo.
Arquivado em: Florianópolis
Mesmo sendo um clichê, não há como negar: é sempre um prazer voltar a Floripa. Claro, há o lado “balneário”, mas também as pessoas…e a produção artística, sempre efervescente – mesmo que o cenário local ainda se ressinta de uma maior estrutura, sobretudo do ponto de vista de mercado; ainda não existe uma galeria sequer na bela ilha. Nossa breve estada foi “otimizada” graças ao auxílio luxuoso de Fernando Lindote [bem como de sua esposa Denise], o cicerone perfeito no que tange a uma contextualização da situação cultural e da cena artística de lá, em boa medida alimentada indiretamente pela UDESC, onde há cursos de graduação e pós em artes visuais. Entre um jantar árabe e um almoço sobre o mar, a conversa vai sendo pautada pelo que acontece ali: que artistas estão aparecendo, as iniciativas locais envolvendo a criação de espaços expositivos e de discussão e pesquisa em arte – via de regra fruto da mobilização isolada ou comunitária de artistas, dada a ausência de políticas culturais para a arte na cidade e no estado, etc. Fernando é das pessoas mais autorizadas para fazer este relato: afinal, já lá vão quase duas décadas, creio, de serviços prestados no meio de arte catarinense, entre desenvolvimento da própria produção pessoal, curadorias, “mapeamento” da produção do estado [com o projeto Pretexto], orientação e acompanhamento de artistas jovens. Vamos portanto para o evento com boa expectativa de participação do público.
Do evento
Como não podia deixar de ser, nossa mesa transcorre no simpático Museu Victor Meireles, escala quase inevitável de qualquer evento envolvendo arte contemporânea em Florianópolis. Comigo, estão Paulo Sergio Duarte, Alexandre Sequeira e Valéria Toloi, esta última representando o Itaú Cultural.
Na pequena e intimista sala que nos abriga – até dispensamos o microfone – , cerca de 50 pessoas, um público razoável.
Paulo Sergio introduz uma nova abordagem em sua fala, focando o que chama “a institucionalização do contemporâneo”; procede a uma demarcação histórica do que se convenciona chamar de contemporaneidade nas artes visuais, ressaltando que a transição do moderno para esta se daria por um movimento “de sedimentação, por camadas”, sem um ponto histórico “fixo” assinalando a mesma. Aponta uma propensão à incorporação de “questões contemporâneas” pelas instituições, vendo aí certa “domesticação” de conceitos e posturas na contemporaneidade, aproveitando para comentar, nesse contexto, certa tendência à “discurseira” na arte, parafraseando Rodrigo Naves. Se estende um pouco no que entende como “domesticação do caráter experimental na arte contemporânea” [parecendo tomar como contraponto certa producão dos anos 60/70], afirmando haver, hoje, “nichos específicos de produção e recepção nessa linha”, o que enfraqueceria de saída tal linha de procedimentos.
Em seguida fala dos problemas crônicos das instituições [de arte] no Brasil, da ausência de políticas institucionais consistentes, sobretudo no que tange a lacunas graves na formação de acervos, o que contribuiria para a ausência de uma história da arte “que se materializa, tornando-se um impeditivo ou barreira na formação das novas gerações”.
Retoma então as linhas gerais de suas falas anteriores [centrada em sua proposta de uma “poética da reflexão”], no que não me estenderei. Afirma “ter se formado no contato com artistas” [de sua geração] e sua produção, e não “nas Bienais de São Paulo”, e que tem certeza de uma “vitalidade experimental” na arte brasileira. Ironiza os relativismos em torno da vocação maior ou menor de certos mídias [“pintura x vídeo”, etc.] e encerra citando Saramago: “Não precisamos ler o romance; vivemo-lo cotidianamente”. Aplausos.
A seguir Alexandre Sequeira apresenta sua fala, focada, como de hábito, num relato acerca da cena artística de Belém, sua cidade, e das possibilidades de viabilização da produção contemporânea em contextos mais ‘periféricos’ a partir de dados [estético-culturais] locais. Como a estrutura de sua apresentação não sofreu alterações, não irei descrevê-la mais uma vez aqui.
Debate – Participação do público
O primeiro a se manifestar é Carlos Asp, conhecido e veterano artista local. Evoca, em tons nostálgicos, eventos culturais e artísticos que ocorreram ali na cidade, nos anos 80 e que segundo ele teriam sido propulsores de algumas carreiras artísticas locais; aponta que o principal órgão fomentador de arte no estado de SC é o Sesc; o ponto central em sua intervenção parece estar centrado num ‘diagnóstico’ da precariedade institucional local.
Denise indaga a Alexandre sobre como se daria a articulação – institucional ou independente, creio – dos artistas em Belém. Sobre esta pergunta é emendada outra, uma dúvida acerca de haver ou não estrutura para a formação de artistas na cena paraense. Ele então comenta a atividade do Instituto de Arte do Pará e o formato de bolsas-estímulo que a instituição oferece a artistas, modelo que provou-se acertado e que passou a ser copiado por outras instituições. Explica ainda que existem três cursos de graduação em artes visuais na capital, 1 na universidade federal e 2 particulares; assinala também a presença de artistas e pesquisadores da área atuando na academia [como ele próprio, entre outros].
Instado a opinar sobre intervenções em espaços públicos e se “haveria força poética” neste tipo de prática artística, Paulo Sergio diz que “para ser arte tem que ter potência poética”, independentemente do mídia ou do local onde ela se dá; comenta sua decepção na experiência da Bienal do Mercosul envolvendo propostas dessa natureza de Waltercio, José Resende, Mauro Fuke e Carmela Gross, realizadas quando ele foi curador do evento e já “alteradas” ou interditadas em função de atos de vandalismo ou de falta de compreensão acerca de seu “funcionamento”. Ressalta a dissonância ou descompasso que as noções de público e privado, a seu ver, assumem frequentemente no Brasil, para afirmar que não vê muito futuro para obras de arte deste perfil [usa o termo “efêmeras”] no país.
Partindo de seu mote “institucionalização do contemporâneo”, pergunto a PSD sobre como ele vê as práticas [artísticas] no âmbito da chamada crítica institucional. Ele responde pelo viés do que considera a “mercantilização generalizada das relações sociais”, e a arte como não ficando fora disso; cita o caso Guggenheim e seu diretor Thomas Krenz – e mostras da grife Giorgio Armani e da Harley-Davidson por ele promovidas – como exemplo dos mais notórios dessa dinâmica, apontando a relação de “contaminacão perversa” nesses casos, onde “arte” e “coisa comum” são deliberadamente fundidas de modo negativo [para a arte, no caso] com a noção de consumo. Na sequência Paulo Sergio afirma perceber um declínio do “curador temático” na atualidade, e traça um quadro desencantado da atividade filosófica mais rigorosa na atualidade [“só tivemos dois filósofos no século 20: Heidegger e Wittgenstein. O resto é ‘pensador’”]. Diz esperar que venhamos a ter uma contemporaneidade “mais problemática, com mais aspereza”; volta à questão do “temático” e dos descompassos na formalização das obras; “os temas que tomam a frente”e da perda de atrito nesse processo. Pergunto a PSD se as tendências do espetacular e monumental [na arte] potencializariam essa coisa do “temático”; ele responde comentando – e contextualizando – a espetacularização tal como compreendida e postulada por Debord [que referia-se mais às relações sociais, não a obras de arte; trata-se de uma plataforma teórica com frequência mal-interpretada ainda hoje], contrapondo a essas tendências suas leituras das “poéticas da delicadeza”, tema sobre o qual tem se debruçado com interesse. Encerramos em seguida.
Arquivado em: Teresina
Como previsto, faz um bocado de calor em Teresina, ainda que seja o “inverno” para os parâmetros locais; nem a chuva que caiu intensamente na cidade por dias a fio parece aliviar a situação, ao menos para forasteiros como nós. A diferença em relação a outras capitais do Nordeste é o fato da cidade não estar localizada no litoral, mas no interior do estado, já na divisa com o Maranhão – o que contribui para intensificar a sensação de “abafamento”. O grande programa turístico, além de pesquisar o proverbial artesanato local [notadamente cerâmica e tecelagem], parece se resumir a assistir ao encontro dos rios Parnaíba e Poti, ao norte de Teresina, quando os mesmos se fundem e partem para desaguar no Atlântico. É de fato um espetáculo e tanto, sobretudo se assistido do agradável restaurante flutuante instalado no parque que assinala o referido ponto – de preferência saboreando uma cajuína, famosíssima bebida local.
Do evento
O evento ocorre nas dependências da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, na região central da cidade. As palestras propriamente ditas se dão numa sala pequena e simpática, misto de auditório e cineclube local. O público não é grande, com cerca de 30 pessoas. Há que se considerar, contudo, que chove torrencialmente essa noite, fator que, como nos explicam, contribui para a baixa audiência. A mesa está composta por Marilia Panitz e Paulo Reis, com a presença também de Tayná Menezes representando o Itaú Cultural.
Abrimos a mesa com Paulo Reis, que introduz pequenas mudanças em sua apresentação; demora-se um pouco mais numa contextualização acerca dos modos de relação do homem com a obra de arte na cultura ocidental, “voltando” até a Idade Média, para então chegar à gênese dos espaços expositivos propriamente ditos, com os salons da França de século 17/18, mote de sua fala. Daí em diante retoma sua linha-mestra, já comentada anteriormente e acompanhada de imagens que ajudam a compreender as mudanças de estatuto na concepção – museológica ou não – no modo de exibir arte, até a contemporaneidade. É enfatizado, em sua fala, o viés das exposições de arte como “construtoras ou formadoras do olhar”, para além do fator meramente contemplativo. Ou, de outra forma, que na instância receptiva – do olhar – há lugar para o aprendizado, que pode se traduzir em uma experiência crítica.
A seguir, Marília Panitz: retorna com sua apresentação em torno de aproximações possíveis entre arte e crítica, com foco no contexto atual. Assinala o potencial involuntariamente “complementar” que sua fala pode ter em relação à de Paulo [é a primeira vez que ambos estão juntos nessas mesas do Rumos], o que de fato procede, na medida em que consistem em abordagens similares, incorporando breves exercícios genealógicos de aspectos caros à produção artística – modelos expositivos, curadoria, crítica e história da arte e seus na contemporaneidade – embora com enfoques diferentes. Como de hábito, a fim de tornar mais dinâmica uma fala pautada nas relações entre críticos e artistas, apresenta um roteiro de imagens em que transitam de Baudelaire e Delacroix [e Manet] a Greenberg e Pollock e Cildo Meireles e Paulo Herkenhoff, sempre a serviço de exemplificar diferentes registros de aproximação [e de resultados] no contato entre os dois agentes. Marilia comenta ainda algumas experiências mais recentes originadas de um estreitamento dessa relação, citando casos como as [extintas] revistas Malasartes e A parte do fogo, além de experiências como a de Ricardo Basbaum [ele próprio um "agente duplo" no melhor sentido, com um perfil de atuação que articula as funções de artista, curador e crítico/pesquisador] e a de seu próprio grupo, Gentil Reversão, também já comentado antes aqui.
Debate – Participação do público
Palestras terminadas, passamos a voz ao público, que se retrai, numa situação de “timidez” razoavelmente habitual; decidimos então inverter os papéis e quebrar o gelo nós mesmos, dado o silêncio na platéia. A mesa passa a inquirir o público em termos gerais acerca de seu perfil, se há cursos universitários em artes visuais na cidade, etc. Nos é respondido que são em sua grande maioria artistas e/ou estudantes e que existe, sim, um curso de licenciatura em artes plásticas na universidade federal do estado e um de bacharelado, este particular.
Nossa estratégia funciona, e logo em seguida surge a primeira pergunta: um rapaz, que trabalha naquela instituição, quer saber como a crítica lida com trabalhos “muito carregados de um componente regional”, aparentemente subentendendo um dilema afetaria também que sua própria produção [o que é irrelevante, dada a procedência da questão]. Uma questão-chave, a meu ver, no âmbito de um programa que visa contemplar amostragens da produção artística por todo o país. Marilia responde que talvez a pergunta pudesse ser reformulada; que talvez ele devesse se indagar se seu trabalho “propõe questões”, querendo com isso – no meu entender – indicar de modo sutil uma possibilidade de verificação da adequação daquela produção ao, por assim dizer, vocabulário contemporâneo. Paulo Reis emenda comentando o relativismo que pode haver em torno da noção de regionalismo, citando obras de Marina Abramovic como exemplo possível de certo “regionalismo dos Bálcãs”, e no entanto absolutamente inserida no grande circuito da arte. Aproveito a oportunidade para também fazer algumas considerações acerca de regionalismos, tentando ressaltar as diferenças e problemas entre faturas e leituras estereotipizantes e /ou “carnavalescas”, o dado local “legítimo” [não necessariamente o "autóctone"] e conflitos de expectativas quanto à inserção no circuito da arte contemporânea, etc. Ecoando nossas colocações, um rapaz faz um ótimo aparte sobre os riscos de uma estereotipização, na busca pela “identidade” [cultural-local-regional].
A seguir, um artista local indaga os palestrantes sobre como a crítica se relaciona com trabalhos em que impera a diluição da noção de autoria, referindo-se à produção de cunho digital e a coletivos de artistas. Marilia e Paulo afirmam não ver qualquer problema no que tange a autoria coletiva ou diluída, ressaltando a primazia do critério qualitativo, como em geral; Marilia se estende citando a “obra aberta” de Eco e Duchamp e a “morte do autor”. Ela então indaga a platéia sobre que outras manifestações artísticas haveriam na cena local, ao que é informada de existirem pesquisas em cinema, tendo inclusive um coletivo dali ganho alguma notoriedade atuando especificamente nessa linha, o “Viva tosco”. Surgem ainda relatos de projetos de arte-educação interessados em investir na integração entre as diversas áreas de produção artístico-cultural. Seguem-se breves digressões sobre as carências da cena local e o formato do único salão de arte ali existente, algo conservador, pelo que pudemos constatar dos relatos. Surgem mais uma ou duas dúvidas técnicas sobre o programa, acompanhadas de elogios gerais à mesa e à iniciativa, etc. – quando aproveitamos para reiterar a importância de se inscrever trabalhos, mesmo que não sejam selecionados, pela oportunidade de tê-los passado pelas mãos de profissionais especializados e atuantes no meio – e encerramos.
Arquivado em: Aracaju
Curioso notar como, apesar da proximidade geográfica, hajam algumas diferenças sensíveis entre Maceió e Aracaju. Inclusive no que se refere à paisagem: embora ótimas, as praias urbanas, por exemplo, aqui parecem ser mais “selvagens”, com largas faixas de areia separando o banhista do mar, que por sua vez é mais revolto, bravio, sem os idílicos predicados “caribenhos” de sua contrafação alagoana. Há praias mais “turísticas”, muito bonitas, localizadas mais afastadas do centro urbano, que por sua vez é cortado por dois rios, [pelo menos] um deles bastante poluído. Outro dado que não escapa ao olhar são as plataformas de exploração petrolífera, onipresentes no horizonte marinho à frente da capital sergipana. Pode ser um bom programa contemplá-las ao pôr-do-sol, enquanto se degusta algumas das inesquecíveis caipirinhas “nevadas” com sabores locais, num dos muitos quiosques da orla. De modo geral – e superficial, claro – tem-se a impressão, desde o aeroporto até restaurantes e “opções culturais”, que Aracaju ainda não está tão equipada para o turismo quanto Maceió ou Natal, por exemplo. O que não vejo como um problema, necessariamente – apenas a constatação, em boa medida intuitiva, de um “turista de ocasião”.
Do evento
A Biblioteca Estadual Epifânio Dória, prédio mal-cuidado de aparência pouco convidativa, de concreto armado e assemelhando-se a um bunker, mas com um auditório bastante confortável, é onde nos apresentaremos hoje. No mesmo edifício, numa área contígua ao auditório, há um espaço expositivo que, apesar de certa precariedade, constitui-se num dos principais locais da cidade destinados a esse fim. Antes de iniciarmos, toda a equipe do Rumos é solicitada pela imprensa local a dar depoimentos e entrevistas, fato não muito comum nessas viagens.
Como em Maceió, dois dias antes, o público não comparece em grande número; cerca de 40 pessoas, aproximadamente, acomodam-se nas poltronas.
A composição da mesa é a mesma da capital alagoana: estão comigo Marilia Panitz, Christine Mello e Tayná Menezes, do Itaú Cultural. Até por isso, evitarei entrar em detalhes sobre o conteúdo das falas, já que as palestrantes de modo geral acabam por realizar suas apresentações seguindo sempre um mesmo modelo, como não poderia deixar de ser, com mínimas “mudanças de script” eventuais. Sugiro portanto a leitura de tópicos anteriores para quem queira melhor se inteirar dos temas e assuntos já discutidos.
Christine Mello retoma suas perspectivas de abordagem do contemporâneo, com a estrutura da fala baseada na já conhecida tríade “desconstrução/contaminação/compartilhamento”, ressaltando “o novo estado de complexidade posto pela arte contemporânea”, ilustrando sua apresentação com os exemplos já comentados anteriormente.
Com Marília Panitz e sua exposição sucede o mesmo: a estrutura da fala se mantém intacta – sob o mote “Arte e crítica: Aproximações” – com um ou outro acréscimo ao material que já conhecíamos. Talvez por conta de uma resposta a uma intervenção da platéia no evento de Maceió, agrega en passant a noção de “olhar estrangeiro” de Walter Benjamin a sua fala, o “olhar que faz aparecer coisas que se fazem invisíveis no cotidiano”, a título de assumir sua – e nossa – condição de “semi-estrangeiros em trânsito” nessas viagens Brasil afora, diversas vezes em locais nunca antes visitados. Demora-se um pouco mais ao citar Ricardo Basbaum e seu modelo “híbrido” das atividades da crítica e da prática artística, ressaltando que a força da crítica estaria no enfoque multidisciplinar, sedutor, e na proximidade – ou cumplicidade – do crítico com a obra – e o artista.
De resto, segue seu roteiro de texto e imagens como programado, sem grandes alterações, afirmando ver potência na atividade crítica que invista em “partilhar metáforas” e “provocar desdobramentos”, colocando a si própria de certa maneira como “estudo de caso”, ao explicar seu trabalho já de 8 anos com o grupo Gentil Reversão, de Brasília.
Debate – Participação do público
Uma jornalista local – que depois sabemos ser bastante atuante na cena – faz um aparte sobre “a efemeridade da arte contemporânea” e sua fruição, citando alguns dos trabalhos que surgem nas falas das palestrantes, associando a seguir essa noção à de descentralização; a colocação assume tons de um manifesto sutil sobre a condição de “estar à margem”, etc.
Marilia comenta de um modo geral a questão da efemeridade, concordando que pode-se ver talvez uma tendência a proposições artísticas que lancem mão dessa linha de procedimentos mas que não se deve generalizar; Christine sustenta que, por mais que o cenário local seja árido, eles não se acomodem em discursos auto-excludentes de “periferia” e “isolamento” e comecem a se mobilizar, usando como exemplo a atividade silenciosa mas cheia de vitalidade de Paulo Bruscky na cena de Recife, décadas atrás. Enumera ainda as possibilidades que alguns projetos em novas mídias, como com celulares, começam a apresentar.
No lastro dessa discussão, surge uma pergunta-comentário sobre artistas de outros contextos, que têm contato com curadores e críticos, etc. – o que não ocorre lá – e “o que a mesa pensa disso”. Marilia se coloca do ponto de vista de quem é de Brasília, “que pode não ser Aracaju, mas que é diferente de estar em São Paulo”, como um meio termo nesse sentido, e termina defendendo que é possível se posicionar – não necessariamente “resolver” – em relação a isso se valendo de dados e estratégias locais. Christine entra na questão pela via do estatuto institucional do artista, citando Nelson Leirner, comentando a relatividade de “privilégios” de se estar em SP, dando exemplos de iniciativas em outros contextos, como Florianópolis. Eu próprio decido comentar o assunto e concordo com essa “condição relativa de privilégio”, me estendendo em contra-argumentos como a competitividade da cena artística de São Paulo, por vezes embutindo mesmo alguma animosidade, e das não-garantias de se ganhar visibilidade apenas por estar na metrópole; procuro aventar possibilidades para a cena local na linha do “da adversidade vi[v]emos”, sugerindo que os artistas talvez pudessem se mobilizar nesse sentido.
Um sujeito, que se identifica como sendo da associação de artistas da cidade, afirma preferir a rivalidade, ou algum “atrito”, a mobilizações harmoniosas entre artistas, nem sempre bem-sucedidas, diz ele. A seguir fustiga a imprensa local, na figura da jornalista presente na platéia, afirmando que a mesma não está pronta para a cultura”. Essas colocações inflamam parte da platéia, que se divide; a jornalista se pronuncia, há réplicas e tréplicas e em alguns minutos a situação se acalma.
Surge uma indagação acerca de mercado de arte, quem compra, perfil de colecionadores – que segundo a pessoa “estariam acabando” – e a relação [essencialmente venal] de galerias de arte e profissionais decoradores, baseado no que leu na revista Veja. Não me furto a observar que não se deve confiar plenamente em tudo que lê, especialmente na publicação citada, comentando ainda meu ponto de vista pessoal sobre a dinâmica envolvendo galerias de arte contemporânea e demandas decorativas, que não vejo com bons olhos, embora em última instância legítima. Marilia discorda do argüinte no que tange ao aventado decréscimo de colecionadores, abordando também a questão de perfis de compradores, o aspecto especulativo, estratégias de mercado, etc. Há tempo ainda para mais uma ou duas dúvidas técnicas, esclarecidas sem dificuldades por Tayná Menezes.
Ao final do evento, travamos contato com alguns artistas e professores universitários locais que nos esclarecem um pouco mais acerca da relativamente pobre cena artística de Sergipe, apesar de haver pelo menos um curso de artes visuais na universidade federal local. Há uma boa interlocução, e ganhamos alguns “kits” de publicações de artistas dali; somos informados ainda sobre não haver qualquer galeria de arte contemporânea na cidade.
A noite termina em um restaurante na orla, um dos únicos ainda abertos. Ali ficamos até a cozinha fechar e termos saciado o apetite de um bando de mosquitos que insistia em devorar qualquer porção de pele a eles exposta. No dia seguinte, já em Teresina e ainda contando as picadas da noite anterior, vejo na TV – não sem algum desconforto – uma reportagem sobre a incidência de focos de dengue, inclusive com casos fatais, justo em…Aracaju. Fico na dúvida de comentar ou não com os colegas, a fim de não comprometer a integridade psicológica dos mesmos.
Arquivado em: Maceió
Maceió; primeira cidade desta “perna” pelo Nordeste, que incluirá ainda Aracaju e Teresina. Ainda no vôo já é possível divisar a beleza deste trecho privilegiado do litoral brasileiro; águas de um azul-esverdeado idílico encontrando as areais claras de praias quase sempre muito longas…
Imbuídos de nosso habitual espírito de adensamento em referências culturais locais, decidimos investigar o litoral local, o que nos levou à paradisíaca Praia da Sereia, situada 20 e poucos quilômetros ao norte da capital alagoana – pouco depois de Riacho Doce, vilarejo famoso por ter sido cenário de adaptação televisiva de romance Jorge Amado, anos atrás. Uma experiência que se comprovou altamente positiva, dentre recifes, mar verde-cristalino e amostras da culinária local. “Tudo pela cultura”, parece ser o lema informal de nossas expedições.
Do evento
O evento se realiza numa sala no prédio da Pinacoteca Universitária da Universidade Federal de Alagoas [UFAL], um dos principais centros culturais voltados para a arte contemporânea em Alagoas. Um local peculiar, de funções mistas, abrigando simultaneamente um colégio e o principal espaço expositivo para arte contemporânea do estado. Na ocasião de nossa conversa, havia ali uma mostra de Paulo Bruscky em cartaz ["EEGs"], em meio à qual – literalmente – realizamos o evento. Uma experiência curiosa mas interessante.
Comigo, à mesa, estão Christine Mello, Marilia Panitz e Tayná Menezes, do Itaú Cultural. Na platéia, não mais de quarenta pessoas.
Christine Mello inicia as falas, aproveitando um mote de Bruscky que confessa ter capturado ali mesmo, na exposição – “Arte em trânsito” – para abrir sua apresentação. Sustenta as possibilidades do Rumos como um “espaço de troca” para em seguida retomar os pontos que habitualmente norteiam sua leitura da produção contemporânea: descentralização, contaminação, desconstrução, os quais introduz a partir de uma referência ao mito de Ourobouros.
A novidade em sua exposição é a exibição de trechos de Zidane, cultuado filme dos artistas Douglas Gordon e P. Parreno; o vídeo, bastante comentado à época de seu lançamento, quando da Copa do Mundo de 2006, consiste em registrar uma partida de futebol em tempo real [90 minutos] focando apenas no famoso jogador, com 30 câmeras seguindo seus movimentos, ações e, sobretudo, “inações”. Ressalta os aspectos ordinários, cotidianos das ações que constituem a existência mundana. Só então entra propriamente em sua fala, “Arte nas extremidades”, que introduz sob o mote de “formas expandidas de circulação da arte”. Como de hábito, apresenta o vídeo Transit, de Regina Silveira, que serviria para ilustrar sua leitura da noção de “contaminação” trabalhada pela arte. Emenda em Desmemórias, projeto de internet-art de Giselle Beiguelman que consiste numa espécie de grande colagem audiovisual em que, a partir da interação do usuário, se reprocessariam memórias [coletivas ou não], por meio de fragmentos de sketches televisivos, música e slogans de época. O cerne da fala de Christine se pauta, enfim, em “processos limítrofes da experiência da arte”.
Marília Panitz dá seguimento aos trabalhos, com sua apresentação “Arte e crítica: aproximações”. .De saída já anuncia que irá falar das relações entre arte e crítica e as possibilidades [ou não] da segunda na atualidade, qual seria seu lugar, etc. Abre a fala citando Argan e certo desencanto percebido pelo crítico e historiador, em seu “Arte e crítica de arte”, em relação às possibilidades para ambas num cenário de crise iminente, desenhado pelo novo estatuto de práticas artísticas da contemporaneidade, indagando sobre se “não estariam ambas caminhando para seu fim”. O pensador italiano não veria mais lugar para o trabalho valorativo da crítica, neste contexto; haveria para ele uma tendência a se produzir então o que se aproximaria mais da filosofia que da crítica. Marilia parte dessa posição “auto-analítica” de Argan em relação à disciplina crítica para instalar uma discussão sobre modelos e perspectivas para a atividade no cenário atual. Comenta, sem se alongar, o viés fenomelógico que caracteriza boa parte da crítica de arte contemporânea, recuperando a seguir a noção do juízo como cara à atividade, citando nomes como Meyer Shapiro e Greenberg. A partir daí, foca seu ponto em como as polaridades cumplicidade e distanciamento podem se manifestar no trabalho da crítica e do artista. Desfila exemplos de casos em que a atividade do crítico se desenvolve em graus diversos de proximidade, ou mesmo cumplicidade em relação ao artista e sua obra, de Baudelaire e Delacroix [e em outra medida Manet] ao caso mais emblemático de Greenberg e Pollock, passando por mario de Andrade e Anita Malfatti. Comenta a mudança de registro operada na então recente crítica de arte na “transição” informal de Diderot – até então o escriba por excelência da cena artística francesa – para Baudelaire, que afirmava ser impossível manter neutralidade ou imparcialidade em relação a obras e artistas sobre os quais escrevia. Demora-se um pouco mais no comentário da relação entre Cildo Meireles e Paulo Herkenhoff, em que em alguns momentos – a partir da leitura de dois ou três trabalhos pontuais do artista – se estabelece uma dinâmica a um só tempo, digamos, “reagente” e complementar que Marilia vê como instigante.
Mais adiante, retoma a “idéia ampliada de texto” introduzida pelo pós-estruturalismo, notadamente em trabalhos de Roland Barthes e Julia Kristeva e seus rebatimentos e [im]possibilidades no campo artístico, também já abordada em apresentações anteriores; daquilo que “não pode ser passado para o plano da palavra”, sendo forçado a se ater à “figuralidade” [outra noção cunhada por pensadores dessa vertente], engatando na produção de Oiticica, Kosuth e G. Maciunas [do Fluxus] como indicadoras de uma “escrita do próprio trabalho” – para além da escrita sobre o trabalho, bem entendido.
Retoma a questão da cumplicidade na atividade da crítica a partir das posições de Ricardo Basbaum, que atua em ambos campos, e que a palestrante vê como estimulante, possibilitando um registro novo na manifestação do juízo de valor. Encerra comentando sua atuação com o grupo Gentil Reversão, que integra, há anos, com mais cinco artistas, sempre na busca por um alargamento de possibilidades criativas investindo num perfil mais orgânico no âmbito das duas atividades.
Debate – Participação do público
A platéia, talvez um pouco tímida, demora a se manifestar. Mesmo sem implicar em uma relação causal direta, cabe lembrar que Maceió não possui cursos universitários em artes visuais, fator que naturalmente tende a minimizar um público mais especializado, à vontade talvez para se manifestar em um evento focado em arte contemporânea.
A primeira manifestação, um tanto confusa, indaga sobre certo “olhar estrangeiro” em relação ao Nordeste, como a mesa se posiciona quanto a isso. Marilia responde que de fato sente-se um pouco “uma estrangeira”, citando impressões de W. Benjamim sobre Nápoles para contextualizar sua leitura de “estrangeiro”. Como a questão parece subentender as impressões que eles, curadores estariam tendo da produção local/regional, ela esclarece que os serão os assistentes-curatoriais a fazer o mapeamento efetivo, operando em suas regiões “nativas”, e que só então ela e colegas poderão entrar com o “olhar de corte”. Christine Mello complementa pelo viés da semiótica, sua área de estudos, e de sua instrumentalização: sustenta que ali, no Rumos, como em outros setores da vida, trata-se de “criar relações entre as coisas”, estendendo-se em mais algumas considerações envolvendo subjetivações semióticas.
Surge na sequência um aparte que indaga sobre “onde estaria a literatura na arte contemporânea”, motivado por trecho da fala de Marilia acerca da “noção ampliada de texto” desenvolvida por certos pós-estruturalistas. Marilia gosta da colocação e aproveita para citar a produção do próprio Paulo Bruscky, que nos rodeia ali no espaço, articulando também conexões com a obra de J.L. Borges; Christine aproveita para citar o Ulisses de Joyce e a idéia do “fragmento em descontinuidade”, apontando possíveis relações com o cinema, que ganhava força simultaneamente ao romance; lembra dos chamados livros de artista e livros-objeto. Indica ainda a produção em vídeo de Gary Hill, por sua proximidade com a literatura, além do Livro de Areia de Borges, um clássico.
Por fim, a mesa é solicitada a identificar questões e tendências contemporâneas, “como isso se daria”, subentendendo ainda um componente regionalista na indagação… Marilia fala então dos problemas intrínsecos em se tentar identificar e/ou rotular a arte contemporânea; enfatiza uma linha de procedimentos na produção artística que instaure um dado questionador como mais potencialmente “contemporâneos”. Estende-se brevemente no ponto de aspectos regionais, a “fala do local”, de questões de repertório, etc. Christine complementa avançando um pouco mais na polaridade local/global, relatando ao final experiência que considerou marcante em Rio Branco, quando conheceu a “Biblioteca da Floresta”, projeto que integra de modo exemplar demandas de inclusão sócio-cultural e conscientização ecológica sem ignorar a força de aspectos da cultura local.
A noite se encerra com um aparte instigante de um professor de economia, reportando a experiência pedagógica na universidade e relacionando-a a certa “decadência cultural” generalizada, tópico animadamente comentado pela mesa.
Arquivado em: Recife
Do evento
Nossa fala terá lugar na Fundação Joaquim Nabuco, um dos principais centros culturais voltados para a arte contemporânea em Pernambuco. Recife é uma cidade-referência em termos de fomento, produção e mobilização artística no Nordeste brasileiro. Até por isso, estranhamos a relativamente baixa freqüência do evento, com cerca de 40 e poucas pessoas presentes no auditório local, numa inversão de expectativas em relação a Macapá, última cidade visitada [ver tópico anterior], que teve o dobro de audiência que aqui comparece. Os coordenadores locais, contudo, nos garantem que está mais ou menos dentro do previsto. Alguns defendem que, justamente por ter uma cena viva e atuante, sintonizada na agenda cultural do país, é possível que artistas locais não tenham se interessado tanto em comparecer ao evento, já familiarizados com o formato do Rumos e tal. Talvez.
Mas enfim: comigo, à mesa, estão Paulo Sergio Duarte, Alexandre Sequeira e Tayná Menezes, representante do Itaú Cultural.
Paulo Sergio Duarte abre a mesa, retomando sua apresentação já amplamente comentada por aqui, “Arquipélagos”. Fala do vigor e do destaque da arte contemporânea brasileira, e retoma sua ‘hipótese’ da poética da reflexão, abarcando um nicho da produção daqui onde forma e conteúdo [conceito] não se dissociam ou distanciam. Discorre novamente sobre os fatores conformadores desta singularidade, notadamente a riqueza de uma certa modernidade brasileira – e a relação não-edipiana que as gerações de agora mantêm com a mesma -, bem como, num aparente paradoxo, sua precariedade ou fragilidade do ponto de vista institucional, que de certo ponto de vista teria sido positiva. Esta última se traduziria sobretudo nas lacunas que persistem até hoje no que se refere à formação de acervos consistentes – com obras daquele período – em museus ou coleções públicas; a falta de uma amostragem substancial desta produção segue sendo um capítulo vexatório em nossa relação com a modernidade.
Faz um breve contraponto de sua “poética da reflexão” com o conceitualismo norte-americano e tendências posteriores, alinhadas á desmaterialização da arte – contraponto porque ali se prescindiria deliberadamente do fator estético, da plasticidade por ele defendida em sua leitura da arte brasileira enquadrada em sua poética da reflexão.
A metáfora insular presente no título de sua fala – “Arquipélagos” – refere-se a “produções poderosas”, dentro do modernismo tupiniquim, mas que não se relacionavam umas com as outras [destaca nomes como Castagneto, Visconti, Anita Malfatti]; isso só mudaria com a chegada do construtivismo por aqui, quando ocorreria a consolidação de um efetivo projeto moderno [tardio?] brasileiro [certamente essa "efetividade" enquanto "projeto" gera controvérsias ainda hoje, que Paulo assume, mas que não cabem ser discutidas ali].
Em uma breve digressão, comenta que a produção – no esteio das Novas Figurações – precariamente chamada de pop no Brasil, nos anos 1960/70, “não tinha nada de pop“, até porque “o artista norte-americano podia ter um distanciamento com seu universo de imagens que o brasileiro não podia ter”, dado o contexto político tenso de então, no país. Este é um ponto que a mim interessaria estender para uma discussão mais aprofundada, mas num outro momento, mais propício. Retoma ainda os possíveis paralelos, já por ele estabelecidos anteriormente, entre representantes da poética da reflexão [brasileiros] e alguns casos da produção alemã e italiana [a povera], sem se alongar. Fico curioso para compreender melhor como fica a relação da “generosidade plástica” apontada por Paulo Sergio como dado intrínseco à sua P. R. e a produção de arte povera e sua característica – de modo geral – austeridade, mas acabo não perguntando; talvez numa próxima vez.
Passamos então a voz a Alexandre Sequeira, que discorre sobre a cena artística e cultural de Belém, cidade onde vive e atua como professor, artista e mais recentemente também como curador. Foca seu discurso, como de hábito, em artistas que partem de uma matriz popular, incorporando elementos locais em seus trabalhos tentando contudo não se ater ao recorte estereotípico do “regional”.
Ressalta, mais uma vez, a importância da linguagem fotográfica como determinante da vitalidade artística do Pará, com ênfase na atividade da Associação Fotoativa. A fala é permeada de conceitos como identidade cultural, regionalismos e os perigos de “estereótipos homogeneizantes”, sempre buscando demonstrar como, mesmo em um contexto mais “à margem” – admito, é difícil evitar alguns clichês…– é possível pensar estratégias de superação das adversidades sem abrir mão do “dado local”. A mim parece haver certo excesso no enfoque em fotografia – isso foi horrível -, e guardo para mais tarde uma dúvida sobre como andaria o restante da produção artística do estado – à parte nomes como Emmanoel Nassar, Marcone Moreira e o falecido Osmar Pinheiro, mais familiares a nós.
Debate – Participação do público
A primeira manifestação da platéia é para Paulo Sergio Duarte, compreensivelmente um “campeão” de questionamentos – e elogios – em nossas mesas. A questão não se faz muito clara, e diz respeito a uma certa precariedade recorrente na arte da América Latina à qual o Brasil não escaparia. PSD procede então a uma contextualização do cenário artístico-institucional latinoamericano, que ao final conclui não estar de modo geral em situação tão drástica quanto o brasileiro.
A seguir, Maria do Carmo, da Joaquim Nabuco, o interpela sobre a “relação não-edipiana” , assim como acerca do “vazio institucional” mencionado, que ela entende que PSD veja como positivo; PSD a lembra que é preciso contextualizar a questão, afirmando que ele se referia a tal “vazio” pensando as relações institucionais com a produção no período moderno.
Surge uma dúvida sobre a poética da reflexão, seguida de comentário acerca da “dificuldade de a arte contemporânea ser compreendida” [questionamento recorrente, com variações, em vários outros locais visitados]. Paulo responde indiretamente, retomando seu mote e reafirmando seu interesse por uma produção que “traga a reflexão embutida na concepção artística do trabalho”, citando Cildo e Tunga, seus exemplos entre outros; encerra parafraseando Adorno e Brecht, “onde está a política a arte não está”.
É lançada então uma indagação mais espinhosa, em torno da “política de regionalização” [sic] e de como esta se resolveria na curadoria, “como se daria essa negociação”. Alexandre sustenta que não se compreenda as coisas isoladamente, em separado, buscando priorizar a qualidade, a excelência, sem se valorizar “o regional” como um dado a priori. Faço também um aparte elogiando o teor da pergunta, que se alinha com algumas de minhas inquietações pessoais e complementando e meu modo as observações de Sequeira. Acho da maior importância que se discuta mais a fundo esse ponto, especialmente num programa como o Rumos, em que esse dado “regional” – subentendendo seu registro estereotípico – pode se misturar de modo delicado com demandas institucionais por “representatividade regional” de todo o país. Um sujeito que já fez uma pergunta meio que complementa a discussão, apontando que pode ser tudo uma questão de se tender ou não a um “olhar homogeneizante” ou não. Rodrigo Braga, jovem artista local de destaque, complementa ressaltando com pertinência alguns problemas implicados no formato do programa; fala também das dificuldades na atuação dos/das assistentes-curatoriais [não mencionando que ele próprio namora uma delas], de sua grande parcela de responsabilidade sendo tão jovens, etc.
Paulo Sergio concorda com o tom das colocações e defende a funcionalidade da noção de ataraxia [termo grego para suspensão das certezas/conceitos], também presente em seu texto.
Retomo a questão do “regional” e indago Alexandre quanto às possibilidades e problemas deste elemento, considerando a natureza de sua apresentação. Ele responde que sua opção por artistas que contenham esse dado forte em sua produção foi deliberada, pensada como uma forma possível de “ser [artista] contemporâneo” trabalhando a partir desta matriz evitando no entanto o aspecto folclórico.
Surgem mais duas dúvidas mais técnicas, referentes a idade e tempo de produção para efeito de inscrição no programa, esclarecidas sem dificuldades por Yara Kerstin, e damos o evento por encerrado.
Arquivado em: Macapá
Voltamos algo avulsamente ao Norte: dessa vez para Macapá, última capital ainda não-visitada pela “caravana Rumos” nessa região – com a exceção ainda de Porto Velho [RO], não incluída em nosso roteiro. “A cidade por onde passa a linha do Equador” é a principal [única?] referência que me ocorre.
O vôo tem escalas em Brasília e Belém, sempre com chuva; no último trecho, já de madrugada e prestes a pousar, em meio a uma tempestade, enfrentamos uma turbulência especialmente violenta. Recorro ao MP3 para, digamos, relaxar, e os primeiros versos que escuto, do Love & Rockets, não são os mais estimulantes naquele contexto: “…you are desintegrating / into everything around“… Desligo na mesma hora, tentando me convencer que não há nada de premonitório naquilo e tento focar no que Macapá nos reserva, após aquela chegada intensa.
O pior não ocorre e, após uma rápida disputa por táxis em que me vi forçado a abandonar qualquer civilidade – 2 da manhã, chovendo e sem ninguém respeitar a fila no aeroporto – chego ao hotel, de instalações bastante modestas para nossos parâmetros até então. Não que faça diferença no meu caso: é chegar e dormir profundamente. Desperto ao som das cabras no quintal vizinho, e a tempo de pegar as sobras do café da manhã.
Mais tarde, já na companhia de duas colegas de viagem, fazemos um reconhecimento de terreno até o ponto que parece se consistir na principal atração turística local: o forte, ou Fortaleza de São José do Macapá e seu entorno. Trata-se de uma imponente construção do século 18, bem à margem do Amazonas, sendo uma das “sete maravilhas brasileiras” [!]. Sim, Macapá situa-se num trecho da orla deste mar de água doce que é o estuário dos rios que vêm da Amazônia; uma visão que de fato impressiona. Almoçamos por ali mesmo – uma peixada típica – e terminamos o giro num shopping center, lamentavelmente o único local onde nos garantem poder tomar um café expresso. Algumas ruas, mesmo não tão periféricas, como a do hotel, apresentam vários trechos com asfalto rompido e condições precárias de trânsito, com terra batida. Assim como Boa Vista, a cidade aparenta ser muito plana, com prédios de não mais de 4 ou 5 andares, ainda assim esparsos. Cogitamos esticar até o famoso “marco zero”, supostamente o ponto exato por onde passa a linha do Equador, mas somos informados que este situa-se em uma região não tão próxima e absolutamente desinteressante. Preferimos então descansar um pouco e chegar mais cedo ao local do evento.
Do evento
Uma vez mais é o Sesc local a sediar nossas atividades, agora uma unidade que toma todo um quarteirão e que chama atenção por suas magníficas instalações com ênfase em práticas esportivas, muito bem mantidas. As palestras ocorrem num espaço coberto mas sem paredes, tornando a atmosfera do evento mais informal. Comigo, à mesa, estarão Marilia Panitz, Alexandre Sequeira e Yara Richter, coordenadora de artes visuais do Itaú Cultural.
A afluência de público termina sendo surpreendente, se considerarmos a expectativa que tínhamos em relação à cidade: cerca de 90 pessoas comparecem, uma boa maioria permanecendo até o fim. Convém ressaltar, contudo, que Macapá – ao contrário, por exemplo, de Boa Vista – possui um curso de graduação universitária em artes visuais, o que pode fazer muita diferença neste aspecto.
Marilia Panitz, crítica, curadora e professora do departamento de artes visuais da UnB, dá início às palestras, em sua primeira participação até o momento. Sua apresentação leva o título “Aproximações: arte e crítica”, já de saída indicando que sua fala passará pela análise do estatuto algo difuso da crítica de arte na atualidade, quais suas perspectivas e seu possível lugar de atuação. Abre citando G.C. Argan e sua posição em relação à atividade da crítica, sublinhando os diferentes registros que a escrita de arte pode assumir – ensaística, historiográfica, jornalística… Pontua sua fala com imagens, usando obras de arte para apontar aproximações entre artistas e críticos/teóricos ao longo da história da arte recente, comentando em que medida o elemento passional entre estes pode ou não determinar ou influir em juízos e leituras acerca de trabalhos. Assim, emergem telas de Pollock onde se evoca o olho e a atuação de Greenberg; de Delacroix e Manet, em que se evidencia a relação de ambos com Baudelaire [em "Música nas Tulherias", deste último, o pintor surge discretamente auto-retratado junto ao poeta], onde a proximidade afetiva seria um impeditivo, para o escritor, da emissão de juízo; de Anita Malfatti, para trazer à tona Monteiro Lobato [seu detrator] e Mário de Andrade [seu "protetor"]; e por aí vai, com mais alguns exemplos. A seguir, Marília se detém sobre a noção de “imagem como texto” aplicada a práticas artísticas, subentendendo na mesma “uma certa resistência da imagem ao discurso”, ou ao menos à sua lógica. A esta noção ela acresce ainda a de uma “pedagogia da imagem”, ao falar da obra de Kosuth, Oiticica e alguns nomes do Fluxus, artistas que estariam “escrevendo a própria obra”. Detém-se ainda sobre algumas obras de Cildo Meireles [como Introdução a uma Nova Crítica, 1970-200] e sua interpretação por Paulo Herkenhoff – à qual, por sua vez, Marilia sobrepõe uma re-interpretação pessoal, no que sugere que poderia ser um modelo de para a crítica de arte. Cita ainda uma passagem de Ricardo Basbaum onde se aventa um “lugar-entre” como possível para a crítica, com ênfase no diálogo.
Mais slides, agora de publicações especializadas em arte no Brasil, algumas já extintas, como a “Malasartes” e “A parte do fogo”, e “Numero”, que se destacam como iniciativas envolvendo artistas e teóricos, com graus diversos de “cumplicidade” em seus projetos. Fala ainda de sua experiência com o grupo-projeto Gentil Reversão, que integra com mais cinco artistas em Brasília, e que tem seu corpo de ações ditado pela valorização desse diálogo artista-crítico, com linhas de trabalho pautadas em “investigações sobre as possibilidades de diálogo” e sustentando “o lugar do texto como dentro do tecido da mostra”. Apresenta imagens de algumas mostras realizadas pelo grupo e encerra defendendo o papel da crítica, hoje, como “propositor de versões e provocações”.
Alexandre Sequeira então realiza sua fala, já amplamente comentada aqui anteriormente, com a proverbial ênfase em identidade cultural, regionalismos, e os perigos de “estereótipos homogeneizantes”. Termina sua apresentação sustentando que “ser contemporâneo não é necessariamente negar o dado local/regional”.
Debate – Participação do público
A platéia demora um pouco a se pronunciar. Após uma ou duas colocações genericamente elogiosas, um senhor indaga a Marilia “o que seria arte contemporânea”, pergunta tão pertinente quanto inadequada, dada a dificuldade em respondê-la em termos objetivos. Ela se desvencilha afirmando que arte contemporânea “é uma arte que lança questões sobre seu tempo, ou [sobre] o tempo em que se vive”, afirmando que nem toda arte produzida em determinada época possui essa característica. Tomo a liberdade de complementar citando as ‘categorias’ de Anne Cauquelin [arte contemporânea" e "arte atual"], distinções tão singelas quanto razoavelmente eficazes, acredito, para efeito deste tipo de questão. A seguir vem uma questão, inevitável, dirigida a Alexandre: algo como “o que ele conheceria da arte do Amapá”. Sequeira assume uma lacuna pessoal nesse quesito e diz só conhecer a produção do grupo-coletivo local Urucum – como de resto os demais integrantes da mesa. O argüinte se mostra compreensivo com nossa lacuna mas não oferece exemplos de artistas que escapem a uma produção de matizes estereotipicamente regionais/artesanais.
É então que uma jovem artista faz uma breve explanação acerca da cena local; ela integra um grupo de estudos e práticas artísticas ligado à universidade cujo foco é a pesquisa no corpo, mote que seria “um grande tabu” frente à fragilidade de mentalidade reinante no contexto institucional macapaense. Descreve algumas ações/intervenções protagonizadas por seu grupo, por vezes de caráter contestatório, e sua receptividade problemática, etc. A mesa comenta genericamente o teor das ações, ressaltando a importância do grupo não esmorecer frente a manifestações negativas.
A seguir, a coordenadora do departamento de artes visuais da universidade faz um aparte semelhante, afirmando ter gostado sobretudo da exposição de Alexandre [sobre a cena de Belém] e relatando também algumas propostas e ações de que ela própria participou ou realizou. Segue-se mais um ou outro aparte elogioso, de modo geral agradecendo a [rara] oportunidade de interlocução com personagens atuantes no meio de arte brasileiro. Surge ainda uma sugestão de se pensar mais um evento em Macapá, ainda durante essa edição do Rumos. Nada pode ser prometido no momento, embora a idéia agrade a todos. Encerramos o evento. O saldo geral é bastante positivo, a julgar pelos comentários dos colegas; é também minha opinião, ainda impressionado pela quantidade de pessoas que compareceram ao evento naquela noite quente.