Arquivado em: Belém
Belém, 10 de março. Início do périplo Rumos Artes Visuais 2008-2009. Primeira de 19 cidades a serem visitadas nessa etapa de difusão do programa país afora, até maio – e eu estarei em todas elas, exercendo nessa etapa duas das três funções que me cabem neste Rumos: coordenação das mesas e confecção destes relatos. Integram a comitiva no Pará Christine Mello e Paulo Reis, curadores, Yara Kerstin Richter, gerente do núcleo de artes visuais do Itaú Cultural, e, numa feliz confirmação de última hora – graças a uma súbita disponibilidade de agenda –, Paulo Sérgio Duarte, coordenador-geral desta edição do programa. A rotina de eventos será um tanto desgastante: 4 cidades em 5 dias, neste primeiro módulo de viagens. Após Belém, seguimos para Manaus, Rio Branco e Boa Vista, respectivamente.
O calor não é tão intenso quanto imaginava, mas combinado à alta umidade do ar pode mexer bem com o organismo, antes da aclimatação. Em compensação, o calor humano é impressionante: poucas vezes me senti tão rapidamente à vontade em um terreno até então para mim desconhecido. Desde já deixo um abraço especial pela acolhida calorosa a Alexandre Sequeira, outro dos curadores desse Rumos, bem como a Armando Queiroz, um dos assistentes curatoriais, Val Sampaio, Armando Sobral e Orlando Maneschy – todos também artistas, professores e profissionais atuantes na cena paraense, seja na universidade, seja em instituições culturais locais.
Do evento
Casa cheia no Instituto de Artes do Pará (IAP); o confortável auditório de porte médio abriga um bom público. Após as apresentações de praxe, Paulo Sergio Duarte abre a mesa falando da relação da produção contemporânea brasileira com seu passado moderno – que vê como “não-edipiana”, no sentido de não se buscar um “confronto” ou ruptura com essa tradição – se é que chegou a se conformar como tradição, no nosso caso; mas esta é outra discussão. Em todo caso, trata-se de mote recorrentemente debatido no meio da historiografia da arte no Brasil –, mas que “a incorporam e a transformam em novas linguagens”. Duarte identifica nessa dinâmica uma tensão positiva, revitalizadora e demarcadora da força e da singularidade de nossa produção, convergindo para o que chama poética da reflexão: um corpo de obras que, “sem fugirem das exigências conceituais de sua construção, se manifestam, simultaneamente, com vigor plástico”.
Em seguida, Paulo Reis, crítico de arte e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), discerra sobre a constituição dos espaços expositivos como arenas de discussão crítica e pública da visualidade. Analisa a construção histórica deste espaço, desde a introdução do modelo de salões no século 18 até suas diferentes configurações na contemporaneidade, apontando as mudanças de estatuto percebidas não apenas em um certo conceito de espaço expositivo como “modelo clássico” como na relação do público e dos artistas com os mesmos. A fala é fartamente acompanhada de imagens que ajudam a contextualizar os exemplos que apresenta, dos salons da Academia Real Francesa a obras de artistas contemporâneos que trabalham aspectos arquitetônicos e/ou institucionais em sua produção, como Daniel Buren e Hans Haacke.
Christine Mello, pesquisadora de vídeo e mídias digitais e professora da Faculdade Santa Marcelina (FASM), encerra apresentando uma leitura da produção contemporânea a partir de um viés a que chama “Arte nas extremidades”, no que seria uma “tentativa de crítica sobre o estado da arte contemporânea do ponto de vista da cultura digital”. Para tal, baseia sua fala em três noções-chave: contaminação, desconstrução e compartilhamento.
Debate e perguntas
É perguntado a Duarte sobre a possibilidade de haver, nos dias atuais, “uma arte que não levasse à reflexão”. Ele responde dizendo que sim, sem dúvida “há muita arte de elevada qualidade estética que não propõe qualquer reflexão”, no que não haveria necessariamente nenhum demérito, citando indiretamente uma aclamada pintora brasileira como exemplo. Discorre mais um pouco sobre como entende a noção de poética da reflexão – introduzida em sua fala –, como sendo “uma arte que, num mundo de certezas, devolve ao corpo a dúvida, instaura o vazio”.
Christine responde a uma questão envolvendo mecanismos de percepção do mundo, reforçando o papel da “máquina como transformadora do estatuto dessa mediação”; fala também sobre imagens estáticas e um novo estatuto de temporalidade na existência atual.
Surgem algumas indagações e dúvidas de cunho mais institucional, referentes ao programa Rumos, rapidamente esclarecidas por Yara e integrantes da mesa.
A última pergunta é talvez a mais instigante: é levantada questão sobre como a arte contemporânea dialoga – ou se relaciona – com a chamada cultura popular “sem que essa relação seja folclorizada”, ou contaminada por juízos e noções estereotipantes. Trata-se de um aspecto absolutamente relevante, a meu ver, num evento protagonizado por um programa como o Rumos, que implicita em seu bojo – mesmo que involuntariamente – a problematização dessa questão.
Todos na mesa nos pronunciamos a respeito: Duarte cita Oiticica e Marepe como exemplos de artistas que operam nessa vertente “sem folclorizar”, ressaltando as diferenças entre cultura popular e arte popular. Eu faço um aparte ressaltando o que vejo como potencialmente delicado nessa aproximação, frisando que a arte contemporânea é um sistema que [se] permite a criação de mecanismos de apropriação e legitimação de produções em princípio alheias a este circuito, lançando para discussão exemplos de artistas – com graus diversos de problematização em sua obra – como Samico, Brennand, Mestre Didi e, mais recentemente, Bosco Lisboa, artista cearense que trabalha com cerâmica presente na última edição do Rumos; Christine fala da extensão do conceito de arte popular a partir do anos 1960, com o advento da pop, a intensificação da televisão etc., sugerindo que o debate passa por uma discussão sobre “alta” e “baixa” cultura. Só lamentamos não haver tempo suficiente para o desenvolvimento apropriado da questão.
Encerramos a estadia em Belém num ótimo restaurante… japonês.
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