Diário do Rumos Itaú Cultural Artes Visuais


Dia 6: Cuiabá
27 Março 2008, 9:10 pm
Arquivado em: Cuiabá

E eu que tinha achado que depois de Boa Vista [Roraima] não reclamaria mais de calor… Cuiabá é praticamente igual, com a diferença de que praticamente não há vento. Mesmo a brisa é um conceito quase abstrato por ali. A situação topo-geográfica da cidade, meio encravada numa baixada, não ajuda nesse quesito – mesmo com a bênção do rio que envolve com elegância a capital mato-grossense, seu homônimo. Os encantos da Chapada dos Guimarães começam “logo ali”, a alguns minutos de carro, mas é melhor não pensarmos nisso. Afinal, como de praxe em nossa jornada, se já não há tempo hábil sequer para se tecer impressões abalizadas sobre aspectos pitorescos locais – o que achei que conseguiria fazer nesses relatos –, quanto mais para pensar em “fast-turismo”.

Para complicar, nosso hotel se chama Amazon, e faz o possível para que seus hóspedes não esqueçam disso: há em todo canto – inclusive no teto, como afrescos improváveis, na piscina e no restaurante – uma profusão de ornamentos, adereços kitsch e itens decorativos de gosto duvidoso [para ficar num eufemismo], ressaltando a pujança da fauna e flora da gloriosa Amazônia. Como lá estivemos há pouco tempo, por vezes me confundo e espero me deparar com o Teatro Amazonas ao andar por duas quadras, o que não ocorre. Caminhar, aliás, é coisa que até os locais desaconselham: dependendo do horário: faz tanto calor que mesmo para distâncias curtas recomendam transporte motorizado, aí inclusa a modalidade moto-táxi, uma coqueluche local. Minhas expectativas pessoais mudam de “desfrutar rapidamente da cidade” para “sobreviver à cidade”.

No quesito “pitoresco”, um fato marcante: durante um trajeto de táxi, entrevemos no alto de uma colina o que o chofer anuncia, pomposamente, como “a nossa Notre Dame”: a Igreja Nossa Senhora do Bom Despacho, que consiste numa réplica em escala miniaturizada da célebre catedral francesa, com uma, digamos, interpretação toda peculiar da matriz gótica. Não sem algum esforço, consigo manter meu semblante sereno frente aquele reverente cidadão.

Do evento

O Sesc Arsenal, que nos recebe, possui instalações confortáveis e bem-cuidadas. O evento se dá numa sala que é também um teatro, espaçoso e bem-equipado. Todo o complexo arquitetônico que abriga esse espaço, um casario baixo que toma toda a quadra, tem uma beleza incerta, num misto de traços coloniais que concorrem com os indícios de uma reforma recente – o lugar fora anteriormente um arsenal. Na noite de nosso evento há também uma feira ocorrendo no local, basicamente oferecendo comidas típicas e algum artesanato. O pátio a céu aberto no interior do prédio, de formato quadrangular, abriga também uma choperia, sempre cheia, no que parece ser um programa regular da população.

O público presente é apenas mediano: cerca de 40 pessoas se espalham nas poltronas do amplo anfiteatro.

Após as habituais apresentações institucionais/introdutórias, o primeiro a falar é Paulo Reis, que retoma sua exposição acerca dos espaços e modelos expositivos. Há pequenas alterações em sua apresentação, sobretudo no conjunto de imagens que acompanham sua fala. Ressalta a importância das exposições como sendo “espaços de aprendizado do olhar” e discerra sobre as mudanças estatuto público e privado sofridas por estes espaços. Dentre as imagens, desfilam obras ou propostas de nomes como Duchamp, Yves Klein, Daniel Spoerri, Daniel Buren, Michael Archer e a dupla escandinava Elmgreen & Dragset. Cita também algumas iniciativas curatoriais que buscam alargar a noção de espaço de exibição e/ou circulação da obra, desdobrando-se em outros modelos “expositivos” e podendo assumir o formato de publicações [Premonitor, de M. Ramiro e Katia Prates, Amor/Love, de Regina Melim, projeto "Do it", do curador H.U. Obrist]. Conclui ressaltando a tônica em pensar o espaço como “dinâmico, cheio de possibilidades”.

A seguir é Alexandre Sequeira quem assume o microfone. Faz uma breve explanação acerca dos novos paradigmas temporais que caracterizam a existência contemporânea para então retomar a estrutura da palestra já apresentada em Brasília, dois dias antes. Seu tema é a cena artística de Belém, sua cidade natal, onde vive e trabalha – “a fala enraizada no lugar”. Como antes, divide sua fala em três módulos, assim dispostos: exemplos de obras e artistas paraenses contemporâneos que articulem e evidenciem aspectos locais em sua produção [nomes como Luiz Braga, Emmanoel Nassar, Marcone Moreira]; origem de espaços de discussão e “formação do pensamento crítico” naquela cena [com destaque para a Associação FotoAtiva, capitaneada por Miguel Chicaoka]; e espaços – institucionais ou não – que potencializam as noções de troca e ativação, onde comenta as possibilidades de articulação da cena belenense com outros pontos do país e do exterior, ilustrando sua fala com imagens de mostras e iniciativas diversas.

Debate – participação do público

Aberta a fala ao público, a primeira intervenção é algo pueril, uma colocação algo ressentida na linha do “por que vocês nunca vêm aqui”. Toda a mesa se pronuncia diplomaticamente, comentando as dificuldades implícitas num projeto que percorre boa parte de um país tão grande, etc. Não há muito como evitar certo lugar-comum nas respostas, dado o teor da indagação.

Em seguida, surgem algumas dúvidas mais “técnicas”, referentes ao Rumos: como inscrever projetos de videoinstalação, se há ou não limites de idade para participar, “qual o objetivo final do programa”, como está sendo feita a divulgação das palestras pelo país… Tayná Menezes, representando o Itaú Cultural, esclarece as dúvidas, lembrando que o edital do programa – tanto em sua versão impressa quanto eletrônica – traz a maioria dessas informações.

Uma jovem sugere que seja feito um contato, por parte do IC, com as secretarias de educação locais, a fim de potencializar a experiência das palestras; a sugestão é considerada boa, e anotada. Quando finalmente surge uma questão referente às palestras em si, ela é um tanto confusa; começa com um elogio às explanações e então se detém num comentário sobre como “adaptar o conceito à imagem”, reportando, creio, ao uso dos arquivos powerpoint feito pelos palestrantes. Paulo e Alexandre agradecem e respondem com apartes breves, comentando seus critérios na utilização da imagens. Sequeira aproveita o ensejo e se alonga em “estratégias de superação do isolamento” – um tema que também foi lançado pela audiência em algum momento, e que parece caro ao cenário local.

A conversa se encerra com um misto de comentário e indagação acerca das [supostas] “dificuldades da pintura hoje, sobretudo a figurativa”, subentendendo que essa modalidade seria alvo de preconceitos em iniciativas como o Rumos; Alexandre se dispõe a responder e o faz com delicadeza, sustentando que o problema talvez não seja a pintura em si como “categoria”, mas o modo como ela é pensada, concebida; e que sempre haveria espaço para uma pintura que embuta certo coeficiente de reflexão.

Após uma rápida confraternização com alguns dos presentes, sempre um dos melhores momentos de nossos eventos, imergimos na noite quente e abafada de Cuiabá, em busca de uma refeição antes de voltar ao hotel para uma noite de sono “amazônico”.



Dia 5: Brasília
26 Março 2008, 9:08 pm
Arquivado em: Brasília

A vantagem de se estar em Brasília – e por apenas um dia – é que não há muito a dizer: a cidade é de certa forma “auto-explicativa”. Por ficar alojado num hotel razoavelmente isolado do centro [vizinho ao Palácio do Alvorada], não me disponho a incursões turístico-culturais, permanecendo recluso até horas antes do evento, quando vou me juntar ao resto da equipe [Paulo Sergio Duarte e Alexandre Sequeira, palestrantes, e Valeria Toloi, do ItauCultural, além das duas produtoras]. Neste relato, a ênfase será no evento.

Do evento

Casa lotada no surpreendentemente mal-cuidado auditório do departamento de artes visuais da UNB. Quase 200 pessoas, estudantes e professores da universidade em sua imensa maioria, se aboletam nas cadeiras, piso e imediações do espaço para acompanhar o evento.

Paulo Sergio Duarte inicia os trabalhos retomando a estrutura de sua fala já proferida em Belém, “Arquipélagos”. Comenta as diferenças que há em se falar para uma audiência mais especializada, do “meio de arte”. Emenda então nas questões que lhe interessam, como a da [não] identidade cultural na produção artística brasileira, ressaltando a singularidade desta em relação a países em que se percebe o esforço em se construir identidades culturais “exclusivas” [e excludentes] e à noção de local, especialmente na chave trabalhada por Moacir dos Anjos [curador]. Retoma então seu mote, o da “poética da reflexão”, com o qual designa um nicho de produção brasileira que pode abarcar o dado conceitual mas ao mesmo tempo “plena de generosidade plástica”. Desta vez, cita alguns trabalhos como exemplos desse raciocínio, como Babel e Blindhotland, de Cildo Meireles e Luz de dois mundos, de Tunga, e sugere aproximações, por esse viés, com alguns nomes da arte povera e da cena alemã [como Beuys, Baselitz, Kiefer]; não se trataria de simplesmente de “se levar a refletir”, mas da reflexão “embutida mesmo no projeto poético”. Contrapõe a estes, sem exemplificar, trabalhos com excesso de elementos narrativos ["ainda que densos, fortes"] mas com “déficit” de formalização no projeto poético. Assume a singularidade do caso brasileiro – a ausência de um projeto efetivo, a “relação não-edipiana” da produção contemporânea com seu passado moderno, a “adversidade”, etc. – como potencializadora de seu interesse por essa produção; faz um breve exercício de genealogia da arte brasileira, desde o que considera a “primeira fase do modernismo” no país [Visconti, Castagneto], que teria transcorrido sob “o elogio da academia”, até o advento do construtivismo, que transformaria a produção brasileira “de ‘arquipélago’ em ‘continente’”; lembra ainda a não–institucionalização na cena artística brasileira como um dado marcante neste processo;

Alexandre Sequeira [artista, curador e professor universitário em Belém] apresenta suas questões sob o mote “Deslocamentos”, adiantando que sua fala será uma espécie de relato de caso focado na cena paraense, sobretudo a de Belém. Nas entrelinhas, pode-se ler como um depoimento acerca de um contexto razoavelmente “periférico” – embora não um caso extremo, dada a vocação razoavelmente cosmopolita da capital paraense – e sobre que estratégias locais adotar para superar essa condição; Alexandre pontua sua fala com expressões como “deslocamentos podem ser situações de enfrentamento” e “uma identidade só se constrói quando confrontada a outra”.

No decorrer de sua explanação, Sequeira exibe imagens de obras de artistas paraenses, sempre mantendo a tônica do “componente de identidade local ou regional”. Sucedem-se então trabalhos de Luiz Braga [fotógrafo veterano e espécie de "artista-referência" da cena de Belém], Emmanuel Nassar, Osmar Pinheiro [pintor falecido há dois anos], Marcone Moreira [expoente da "nova geração" paraense, e como os anteriores já razoavelmente conhecido no eixo RJ-SP], Paula Sampaio [fotógrafa, também jovem] e Miguel Chikaoka [outro fotógrafo veterano, oriundo de São Paulo e radicado em Belém; figura central na difusão e desenvolvimento da fotografia no estado a partir dos anos 1980, é o fundador-coordenador da Associação Fotoativa].

Um segundo bloco apresenta imagens mais contextuais de Belém, trazendo registros de eventos e iniciativas culturais autônomas ali transcorridas no espaço de algumas décadas, especialmente acerca dos personagens e iniciativas envolvidos na pesquisa e experimentação fotográfica, que marcaram o cenário cultural local nas últimas duas décadas. Neste quesito, o grande destaque é para a Associação Fotoativa, iniciativa que deflagrou forte movimentação em torno da pesquisa fotográfica no Pará, que viria a se constituir como linguagem. Há ainda um terceiro conjunto de imagens, mais focado em ilustrar situações expositivas em locais não-usuais – ruas, mercados –, sempre em Belém.

Alexandre encerra sua apresentação insistindo na importância dos artistas em articular questões e elementos locais em sua produção, de não esquecer as características de “seu lugar”. Seu ponto de vista, no entanto, é menos o de defender uma “poética regionalista” que o de propor estratégias de superação frente a um cenário adverso ou rarefeito no que tange à arte contemporânea, onde recorrer ao ideário cultural local pode ser uma alternativa.

Debate e perguntas

A primeira pergunta [de poucas, estranhamente, dado o contexto] é para Paulo Sergio, e refere-se à possibilidade ou não de aproximação de sua “poética da reflexão” a outra noção que a indagadora vê como similar, a do “conceitual ideológico” [cuja autoria não consegui identificar], particularmente no que tange à obra de Cildo. PSD vê alguma relação com o termo, mas talvez “com menos precisão” [por parte de seu conceito]; cita alguns exemplos em que não haveria o teor de “ideologia” tão latente, como no próprio Blindhotland, deste artista. Emenda ainda, sem se alongar, em um comentário sobre “neoexotismos” em alguma medida nefastos, cultuados atualmente no Brasil.

A seguir, Marilia Panitz, na platéia, coloca questão que vê como presente em ambas as falas do dia, sobre “certa timidez da presença da instituição”, ou da ausência da mesma como determinante ou, paradoxalmente, força propulsora em cenas artísticas no país. Alexandre diz que isso de fato foi a realidade por um bom tempo em Belém, e que felizmente o quadro hoje, naquela cidade, é melhor; mas que de qualquer modo a classe artística local sempre se recusou a resignar-se àquela situação, conclamando a tomar “o isolamento” como força-motriz. PSD complementa discerrando sobre a conhecida carência institucional no país [sempre do ponto de vista das artes visuais], das lacunas em acervos públicos, etc. Encerra citando o comentário infeliz proferido por um alto funcionário de órgão federal ligado à cultura, em que o sujeito sustentava, seriamente, que as políticas institucionais de museus brasileiros devem ser não a de “aquisição”, mas “a de doação”. Triste diagnóstico.

Um estudante arrisca uma questão para PSD, mas infelizmente se equivoca no enunciado: quer saber qual seria o “projeto artístico brasileiro” sobre o qual ele teria falado. Paulo Sergio corrige, esclarecendo que nunca falou em “projeto brasileiro”; no máximo no projeto construtivo, sugerindo uma discussão em potencial a partir das noções de “construtivo” e “abstração geométrica”. A seguir, fala de sua posição em relação à instituição, lembrando que sua própria trajetória se confunde com cargos de direção à frente de diversas instituições [inclusive a Funarte]. Emenda em comentário sobre a “mercantilização de tudo” no mundo do capitalismo avançado, à qual nem a arte estaria imune, sendo frequentemente “colocada ao nível de mercadoria”; e comenta por cima tendências em arte de crítica institucional e a ação de coletivos de artistas, que vê como estimulante, onde não raro “a ética sobrepuja a estética”. Frente ao silêncio ou timidez da audiência, aproveito a referência rápida de PSD e permito-me retomar o mote da atuação dos coletivos e do “ético sobre o estético”, alongando-me mais no tópico. Exponho o que vejo com problemas em potencial que esse modelo de práticas pode incutir; assumindo que estou generalizando; me refiro a ações de coletivos de artistas que, por mais sérias e comprometidas em seu engajamento que sejam, a meu ver se enfraquecem ou mesmo se esvaziam quando insistem em ser referidas como “arte” [o caso da ocupação Prestes Maia, por exemplo, dentre tantos outros]. É como se esses grupos [ainda generalizando] não conseguissem um grau de despojamento suficiente em sua prática para abandonar a égide da “arte” como condutora/propulsora das ações que empreendem, sendo que estas frequentemente parecem estar se dando em outro território – e aí voltamos para o aspecto da “ética sobre a estética” mencionado por Paulo Sergio –, quando não flertam mesmo com franco assistencialismo. A discussão inevitavelmente passaria por estética relacional, a última [e talvez a próxima] Bienal de São Paulo, etc., e não caberia aqui. Comento também práticas de “arte de crítica institucional” no Brasil, e sobre a dinâmica que vejo como algo esquizofrênica gerada a partir do momento em que, consagradas e legitimadas como tal [sejam de cunho efetivamente "problematizador/tensionador" ou não], a instituição passa a achar quase benvindas esse tipo de propostas. Penso em salões de arte em que sempre há um ou outro trabalho nessa linha de abordagem, quase como uma “categoria” ou modalidade autônoma e “desejável”, quase um registro do politicamente correto adaptado para o mundo da arte. PSD concorda e reforça ainda que a própria noção de instituição é remota no país.

A platéia continua retraída, e como já se faz tarde, encerramos o evento.

Ignorando o dado “local” presente nas falas da noite, contudo, fechamos nossa estada em Brasília indo jantar – ou “cear”, àquela altura da noite – em um ótimo restaurante argentino.



Dia 4: Boa Vista
14 Março 2008, 9:07 pm
Arquivado em: Boa Vista

A primeira sensação, ainda do avião, é de alguma surpresa: mesmo sem ter expectativas definidas acerca do que esperar de Roraima, mais localizadamente de Boa Vista, chama atenção a formação topográfica e vegetal na região em que se situa a capital: assemelha-se mais a um cerrado, ou a “savanas” com colinas. Chamo de “surpresa” por conta de tratar-se de uma área extrema do país e situada em território amazônico, o que inevitavelmente gera uma expectativa – moldada por estereótipos, é verdade – por florestas cerradas e vegetação luxuriante, que não há. Mas claro que no fundo é completo desconhecimento anterior de minha parte.

Como nas três cidades anteriores, a capital se situa às margens de um rio, o Branco. Num rápido vislumbre aéreo, percebe-se que se trata de uma cidade razoavelmente pequena – para uma capital – mas planejada, em formato de leque, espalhando-se num desenho elegante a partir da orla. Nota-se também, ainda das alturas, diversos nichos de pobreza, com casebres amontoando-se organizadamente dentre ruas de terra, mais para a periferia. Em terra, minhas impressões foram a de uma cidade muito plana, de ruas largas e limitadas opções turísticas, e com pouquíssimas áreas verdes no projeto urbano – o que, combinado ao clima local, potencializa a sensação de aridez.

Faz muito calor, mais que em qualquer outra das localidades visitadas até o momento. O sol é tão quente que mesmo a convidativa piscina do hotel, cercada por árvores, é evitada a partir das 11 da manhã, ganhando mais afluxo de banhistas a partir das 4 da tarde.

Leio no diário local ["A Folha de Boa Vista", todo em preto-e-branco] um colunista lamentando as ainda precárias condições de acesso à internet no estado; ironicamente, foi o lugar onde tive a melhor conexão à web dentre todas as cidades visitadas no Norte, em meu quarto de hotel. Parece que dei sorte, isto não é a regra por aqui.

Em conversas breves com interlocutores locais, percebemos um quadro complexo de relações sendo discutidas no estado, sobretudo a questão referente à demarcação de áreas indígenas. Roraima é um estado recente, com menos de 20 anos de existência, e quase 50% de seu território é oficialmente ocupado por terras indígenas, recentemente “beneficiadas” por uma lei ambiguamente protecionista [não há espaço aqui para me alongar na contextualização adequada]. Some-se a isso o tradicional extrativismo mineral – ouro, prata e diamante –, não raro praticado de forma ilegal dentro dessas mesmas áreas, e tem-se um delicado cenário político.

Temos dois dias de permanência em Boa Vista, quase “um luxo” em nossa rotina sempre acelerada, mas o calor é tanto que inviabiliza até mesmo eventuais programas turísticos. Caminho apenas duas quadras até uma farmácia próxima, e já é o suficiente para sentir na pele. Sucumbo um tanto covardemente ao apelo do ar-condicionado de meu quarto, onde só me resta escrever ou tentar terminar a leitura de um dos três livros começados que me acompanham há meses. A dificuldade em encontrar minha marca de cigarros, que depois compreendo se dever ao lobby da fabricante rival na cidade, compromete meu rendimento, mas paciência.

Do evento

Público surpreendentemente baixo, mesmo para nossas expectativas já não muito otimistas: afinal, Boa Vista não possui um curso universitário sequer em artes visuais, tampouco há galerias na cidade. O Sesc local, que recebe nosso grupo, constitui-se praticamente na única referência na cena artístico-cultural da cidade. Há um outro centro cultural na capital, de aparência meio “shoppinesca” e que não chego a visitar, mas que pelos comentários de colegas não parece ser um programa compensador.

Cerca de uma dúzia de pessoas [!] se espalhavam pelo auditório, entre artistas e agitadores culturais locais e simples curiosos. Frente a essa situação, decidimos abrir mão do uso de microfones, tornando a coisa mais intimista. E funcionou: as pessoas ficaram mais à vontade, os próprios palestrantes se contagiando por esse formato e adotando em suas falas um tom mais próximo ao de uma aula informal, não se furtando a caminhar pelo espaço enquanto expõem suas imagens de apoio.

As apresentações de Paulo Reis e Christine Mello [e a essa altura creio já não ser preciso especificar os conteúdos de suas palestras, comentados nos relatos anteriores], agora mais enxutas, após a incorporação de comentários e observações anteriores do público quanto à recepção, transcorrem de modo mais fluido, solto, respondendo também ao clima de informalidade vigente. O que poderia ter sido uma grande frustração, por conta da baixa afluência de público, é revertido a favor, numa agradável “conversa aberta”. A platéia se pronuncia mesmo durante as falas, uma novidade em nossos encontros até então.

Surgem algumas dúvidas mais “técnicas-institucionais”, referentes à verba [ou "pró-labore"] para produção de trabalhos selecionados, rapidamente esclarecidas por Yara Richter, do Itaú Cultural. Um fotógrafo-artista local insiste na questão do mercado, de como se criar demandas para a produção de lá, etc. Paulo Reis comenta o assunto, estendendo a discussão também para contextos menos “periféricos”, tentando apontar estratégias que potencializem a constituição de uma dinâmica mais estruturada [a necessidade de galerias, curso superior, críticos, etc.]; mais dúvidas gerais, etc. De modo geral a participação de público é tímida, seja pela audiência reduzidíssima como por vários apartes já terem sido feitos no decorrer das apresentações

Encerramos nossa jornada pelo norte num complexo de bares e restaurantes na orla do Rio Branco, acompanhados da coordenadora do Sesc local, muito simpática [são sempre simpáticos, nossos contatos]. Um conjunto musical embala a diversão com alguma competência e um repertório duvidoso; boa parte das canções é em espanhol, lembrando da proximidade da fronteira com a Venezuela, a poucas horas de carro dali. Quem sabe numa próxima vez conseguimos uma esticada até Isla Margarita…



Dia 3: Rio Branco
12 Março 2008, 9:05 pm
Arquivado em: Rio Branco

Desembarcamos em Rio Branco por volta de meio-dia, o que nos dá menos de 6 horas para perambular pela cidade, tentando formar um repertório mínimo de dados e informações locais antes do início do evento, mais à noite. O hotel, um dos únicos da cidade, localiza-se próximo ao rio Acre [não exatamente branco], numa região que parece ser razoavelmente central. Curiosamente, percebemos que a equipe de bordo do vôo que nos trouxe também está se hospedando no mesmo estabelecimento, o que gera uma breve e inusitada confraternização. Faz bastante calor, como era previsto.

Nosso “reconhecimento de terreno” não é dos mais animadores: os arredores, uma zona comercial, não possuem atrações turísticas propriamente ditas. Há um tipo de casario pitoresco na orla do rio, que encanta mais pelo colorido de suas fachadas, dispostas lado-a-lado, que por características arquitetônicas em si. Já na ponte que dá acesso à cidade se distingue claramente sinais de pobreza, nas palafitas que se sucedem precariamente ao longo do rio.

Uma colega de viagem sustenta que, apesar da paisagem citadina relativamente árida e pouco convidativa a “flanagens” – ao menos a um primeiro olhar e na área limitada que percorremos – há mais indícios de planejamento urbano aqui que Manaus, de onde acabamos de chegar. Pode ser; prefiro não formular opinião, dada a brevidade de nossa permanência nestes locais. Dois colegas de viagem relatam boas impressões sobre o Museu da Borracha e da biblioteca Marina Silva, misto de casa de leitura e centro cultural, ambos nas cercanias.

Do evento

As palestras ocorrem no Teatro Hélio Mello, instituição que homenageia o famoso e finado artista local [de quem havia peças na 27ª Bienal de São Paulo].

O evento inicia com a fala de Christine Mello, que reforça que o foco de sua leitura da produção contemporânea está “numa perspectiva transversal, que permite deslocamentos”. Comenta que a “contaminação”, um dos conceitos que lhe interessa – e ilustra com obra de Regina Silveira [o vídeo de Transit] –, como “o trânsito entre os espaços da arte e da vida”. O vídeo Vera Cruz, de Rosângela Rennó, serve para ilustrar sua aproximação com a noção de desconstrução [“um filme de sobras, de bordas”]. Ressalta ainda que a perspectiva de “Arte nas extremidades”, título de sua apresentação, é a da cultura digital.

Em seguida, Paulo Reis expõe sua fala acerca do estatuto cambiante do espaço expositivo, desde sua gênese no século 17 à atualidade, em que artistas passam a incorporar o dado institucional como força motriz em sua produção.

Abre-se o debate à platéia. A primeira indagação é de ordem mais técnica, sobre o fato de haver apenas um curador-assistente para realizar o mapeamento da região norte [Armando Queiroz, de Belém]. Yara Richter explica que isso se deve à diretriz de se trabalhar apenas com curadores-assistentes locais nesta edição do Rumos, como forma de se otimizar esta etapa do programa, e que a região não ofereceria muitas alternativas de nomes com este perfil.

Em outro aparte do público, vem à tona o singelo termo “florestânico” – que expressaria e/ou sintetizaria o espectro cultural e o modo de vida dos habitantes da região –, o qual gera comentários simpáticos por parte dos componentes da mesa.

Em seguida, um membro do público agradece à mesa pela presença e observa – com pertinência, a meu ver –, que apesar do sincero prazer em estar ali, sentiu que as exposições dos palestrantes, ainda que instigantes, foram um pouco extensas e talvez um pouco “complexas” para o repertório médio local. De minha parte, embora não verbalizando, concordo com a observação; trata-se de um ponto importante, uma vez que as apresentações dos curadores são o mote destas viagens [juntamente com a difusão do Rumos], e não há sentido em promovê-las se negligenciamos as condições de assimilação das mesmas pelo público. Não é um problema de fácil resolução, dadas as variantes em jogo: seria simplista e indelicado pensarmos em termos de “rebaixar o discurso”, mas ao mesmo tempo há que se tentar equacionar melhor este aspecto. Debateremos internamente esta questão. O autor do comentário também questiona a “ausência de casos brasileiros” nas palestras; creio que ele se refira basicamente à apresentação de Paulo, mas é Christine que responde, argumentando que só usou exemplos de artistas nacionais em sua fala [Regina Silveira, Rosangela Rennó]. Complemento dizendo que, pelo próprio teor da palestra de Paulo, esta ausência seja explicada [especificamente no que diz respeito à genealogia dos espaços expositivos de arte].

Há tempo ainda para uma breve mas animada discussão acerca dos estigmas e relativismos que permeiam a questão “eixo Rio-São Paulo”, um tópico inevitável no âmbito de um programa como o Rumos.

A noite se encerra com a intervenção de um artista local, Dalmir Ferreira, que faz um breve e simpático relato sobre sua própria experiência ao ter sido mapeado na primeira edição do Rumos. Agora só resta Boa Vista, amanhã, para completarmos a “perna” Norte desta etapa do Rumos.



Dia 2: Manaus
11 Março 2008, 9:02 pm
Arquivado em: Manaus

Seguimos para Manaus – agora sem podermos contar com a companhia de Paulo Sergio Duarte –, onde ficaremos por menos de 24 horas, infelizmente.

E aqui aproveito para fazer um rápido esclarecimento: lembrar que as viagens a serem realizadas nesta etapa do Rumos Arte Visuais, passando por 19 cidades do país, não prevêem visitas a ateliês ou encontros com artistas. Apesar de sempre contar com alguns dos curadores nas mesas, o foco destes eventos presenciais está principalmente na divulgação do Rumos Brasil afora (incluindo, naturalmente, esclarecimentos de dúvidas gerais acerca do programa, o que para olhos metropolitanos-cosmopolitas é mais importante do que possa parecer, sobretudo em áreas com menos acesso à informação), além de permitir que os curadores – que se alternam nas viagens – apresentem suas idéias e linhas de pesquisa, que provavelmente serão rebatidas nas exposições que terão lugar no próximo ano. O mapeamento propriamente dito será realizado pelos oito assistentes-curatoriais, designados para atuar localmente em suas regiões.

Manaus. Desembarco tentando conter as expectativas do que não poderei conhecer, dada a brevidade de nossa passagem. Preciso parar de pensar nesses termos (não estamos aqui a turismo, afinal), mas é difícil. Só há tempo de ir rapidamente ao afamado e grandioso Teatro Amazonas e a uma loja de artesanato local (ok, ok, talvez um pouco de turismo), num tour rápido entre o almoço e o início do evento. Não chegamos a conhecer a (extinta?) Zona Franca, que está a seis quadras do hotel, nem a sorveteria Glacial, um must local, pelo que ouvimos. Nada de passear de barco, ver o encontro de águas do Rio Negro com o Solimões, tomar tacacá no centro ou pescar piranhas.

A atividade hoje irá transcorrer no Sesc local, entidade que gentilmente abrigará também os eventos do Rumos em outras localidades.

Do evento

O prédio do Sesc de Manaus localiza-se numa rua comercial movimentada e, num relance, parece dotado de infra-estrutura razoável. O misto de anfiteatro e auditório é amplo sem ser propriamente grande, bom para abrigar eventos como o nosso ou pequenos shows (há camarins no backstage, embora um tanto precários). Os responsáveis locais pela instituição, Nilton Carlos e sua assistente Raquel, são simpáticos e atenciosos.

Paulo Reis e Christine Mello apresentam suas falas – já brevemente comentadas na primeira postagem deste tópico (em Dia 1: Belém) –, sem grandes variações, para um público razoável no confortável espaço do Sesc.

Findas as exposições, hora de participação da platéia. O povo demora um pouco para vencer a timidez e lançar a primeira questão. Quando esta vem, e por seu teor é endereçada a Paulo, trata de modo algo confuso da relação do trabalho do artista com o espaço expositivo, de um ponto de vista mais museográfico. Discutimos um pouco os problemas inerentes a um formato expositivo como o do Rumos Artes Visuais, que em suas diversas curadorias geralmente abarca um corpo considerável de trabalhos e tem que lidar com situações expositivas diversas – e não raro adversas – país afora, e de como as montagens podem afetar a leitura das obras. Comentamos ainda o papel do artista frente a este quadro, sem chegarmos exatamente a soluções, mas de todo modo alargando uma discussão que sem dúvida é procedente.

Um rapaz, que se anuncia como quadrinista [autor de HQs], indaga, após uma breve digressão acerca da cena artística local, sobre o teor de “visibilidade” que o Rumos proporcionaria a seus participantes. A mesa responde que esta não é uma premissa do programa, embora isso naturalmente ocorra, afinal trata-se de um projeto prestigioso e com ampla cobertura da mídia. A conversa estende-se para a questão dos “mapeados” (aqueles que são contatados e/ou visitados pelo programa mas que não entram na seleção final, modelo que em princípio deverá ser extinto nesta edição), quando lembramos que não é incomum que alguns destes terminem por alcançar mais visibilidade que os selecionados. Reforçamos que parte do perfil do Rumos está apoiado em certa dose de risco nas escolhas, dada a vasta amostragem de obras e artistas muitas vezes totalmente desconhecidos. Estendemos rapidamente a discussão sobre a dificuldade das HQs/comics em atingir o estatuto de “arte séria” – o que se mostra cada vez mais relativizado na produção contemporânea de quadrinhos, com potenciais “autênticos artistas contemporâneos” – e sobre quais fatores estariam por trás desta estigmatização, como o fato dessa ser uma linguagem voltada para circulação massiva, produzida em escala de reprodutibilidade industrial, etc. Uma discussão que pessoalmente me interessa, mas que talvez não seja apropriada para esta mesa.

Já nos aproximando do encerramento, um senhor interroga a mesa de modo um tanto prolixo sobre “se a arte teria transcendido o objeto artístico”, sem no entanto deixar claro seu ponto. Christine Mello responde delicadamente parafraseando Leonardo – “A arte é cosa mentale” – e afirma que sim, “a arte é linguagem e nesse sentido transcende o objeto artístico”. Paulo Reis complementa o aparte da colega citando H. Rosenberg: “a arte é metade matéria (forma), metade pensamento”. O evento é finalizado de modo simpático e caloroso, com várias pessoas da platéia procurando os palestrantes para trocar contatos e informações.

A noite é encerrada com uma modesta e memorável incursão gastronômica ao Açaí, restaurante típico local que se provou sugestão mais que acertada de nosso anfitrião, Nilton, para nos despedirmos de Manaus. Amanhã será Rio Branco.



Dia 1: Belém
10 Março 2008, 8:31 pm
Arquivado em: Belém

Belém, 10 de março. Início do périplo Rumos Artes Visuais 2008-2009. Primeira de 19 cidades a serem visitadas nessa etapa de difusão do programa país afora, até maio – e eu estarei em todas elas, exercendo nessa etapa duas das três funções que me cabem neste Rumos: coordenação das mesas e confecção destes relatos. Integram a comitiva no Pará Christine Mello e Paulo Reis, curadores, Yara Kerstin Richter, gerente do núcleo de artes visuais do Itaú Cultural, e, numa feliz confirmação de última hora – graças a uma súbita disponibilidade de agenda –, Paulo Sérgio Duarte, coordenador-geral desta edição do programa. A rotina de eventos será um tanto desgastante: 4 cidades em 5 dias, neste primeiro módulo de viagens. Após Belém, seguimos para Manaus, Rio Branco e Boa Vista, respectivamente.

O calor não é tão intenso quanto imaginava, mas combinado à alta umidade do ar pode mexer bem com o organismo, antes da aclimatação. Em compensação, o calor humano é impressionante: poucas vezes me senti tão rapidamente à vontade em um terreno até então para mim desconhecido. Desde já deixo um abraço especial pela acolhida calorosa a Alexandre Sequeira, outro dos curadores desse Rumos, bem como a Armando Queiroz, um dos assistentes curatoriais, Val Sampaio, Armando Sobral e Orlando Maneschy – todos também artistas, professores e profissionais atuantes na cena paraense, seja na universidade, seja em instituições culturais locais.

Do evento
Casa cheia no Instituto de Artes do Pará (IAP); o confortável auditório de porte médio abriga um bom público. Após as apresentações de praxe, Paulo Sergio Duarte abre a mesa falando da relação da produção contemporânea brasileira com seu passado moderno – que vê como “não-edipiana”, no sentido de não se buscar um “confronto” ou ruptura com essa tradição – se é que chegou a se conformar como tradição, no nosso caso; mas esta é outra discussão. Em todo caso, trata-se de mote recorrentemente debatido no meio da historiografia da arte no Brasil –, mas que “a incorporam e a transformam em novas linguagens”. Duarte identifica nessa dinâmica uma tensão positiva, revitalizadora e demarcadora da força e da singularidade de nossa produção, convergindo para o que chama poética da reflexão: um corpo de obras que, “sem fugirem das exigências conceituais de sua construção, se manifestam, simultaneamente, com vigor plástico”.

Em seguida, Paulo Reis, crítico de arte e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), discerra sobre a constituição dos espaços expositivos como arenas de discussão crítica e pública da visualidade. Analisa a construção histórica deste espaço, desde a introdução do modelo de salões no século 18 até suas diferentes configurações na contemporaneidade, apontando as mudanças de estatuto percebidas não apenas em um certo conceito de espaço expositivo como “modelo clássico” como na relação do público e dos artistas com os mesmos. A fala é fartamente acompanhada de imagens que ajudam a contextualizar os exemplos que apresenta, dos salons da Academia Real Francesa a obras de artistas contemporâneos que trabalham aspectos arquitetônicos e/ou institucionais em sua produção, como Daniel Buren e Hans Haacke.

Christine Mello, pesquisadora de vídeo e mídias digitais e professora da Faculdade Santa Marcelina (FASM), encerra apresentando uma leitura da produção contemporânea a partir de um viés a que chama “Arte nas extremidades”, no que seria uma “tentativa de crítica sobre o estado da arte contemporânea do ponto de vista da cultura digital”. Para tal, baseia sua fala em três noções-chave: contaminação, desconstrução e compartilhamento.

Debate e perguntas

É perguntado a Duarte sobre a possibilidade de haver, nos dias atuais, “uma arte que não levasse à reflexão”. Ele responde dizendo que sim, sem dúvida “há muita arte de elevada qualidade estética que não propõe qualquer reflexão”, no que não haveria necessariamente nenhum demérito, citando indiretamente uma aclamada pintora brasileira como exemplo. Discorre mais um pouco sobre como entende a noção de poética da reflexão – introduzida em sua fala –, como sendo “uma arte que, num mundo de certezas, devolve ao corpo a dúvida, instaura o vazio”.

Christine responde a uma questão envolvendo mecanismos de percepção do mundo, reforçando o papel da “máquina como transformadora do estatuto dessa mediação”; fala também sobre imagens estáticas e um novo estatuto de temporalidade na existência atual.

Surgem algumas indagações e dúvidas de cunho mais institucional, referentes ao programa Rumos, rapidamente esclarecidas por Yara e integrantes da mesa.

A última pergunta é talvez a mais instigante: é levantada questão sobre como a arte contemporânea dialoga – ou se relaciona – com a chamada cultura popular “sem que essa relação seja folclorizada”, ou contaminada por juízos e noções estereotipantes. Trata-se de um aspecto absolutamente relevante, a meu ver, num evento protagonizado por um programa como o Rumos, que implicita em seu bojo – mesmo que involuntariamente – a problematização dessa questão.

Todos na mesa nos pronunciamos a respeito: Duarte cita Oiticica e Marepe como exemplos de artistas que operam nessa vertente “sem folclorizar”, ressaltando as diferenças entre cultura popular e arte popular. Eu faço um aparte ressaltando o que vejo como potencialmente delicado nessa aproximação, frisando que a arte contemporânea é um sistema que [se] permite a criação de mecanismos de apropriação e legitimação de produções em princípio alheias a este circuito, lançando para discussão exemplos de artistas – com graus diversos de problematização em sua obra – como Samico, Brennand, Mestre Didi e, mais recentemente, Bosco Lisboa, artista cearense que trabalha com cerâmica presente na última edição do Rumos; Christine fala da extensão do conceito de arte popular a partir do anos 1960, com o advento da pop, a intensificação da televisão etc., sugerindo que o debate passa por uma discussão sobre “alta” e “baixa” cultura. Só lamentamos não haver tempo suficiente para o desenvolvimento apropriado da questão.

Encerramos a estadia em Belém num ótimo restaurante… japonês.